“Democracia” das minorias

Jornal Terceiro Tempo – Edição não localizada nos arquivos

Publicada no final dos anos 1990/ano 2000

 

Foi divulgada em Brasília uma pesquisa do Instituto Vox Populi dando conta de que o brasileiro anda “insatisfeito” com o Governo FHC. Há nessa pesquisa dois aspectos aparentemente “estranhos”. O primeiro deles surge mais ou menos por dedução: se o brasileiro está insatisfeito agora, por que não estava na época da eleição? O que terá mudado, de outubro para cá, a ponto de gerar “insatisfação” no eleitorado que reelegeu o presidente?

O segundo dado aparentemente curioso está na própria pesquisa: segundo o Vox Populi, apesar de se verificar essa insatisfação com o Governo, a popularidade de FHC mantém-se nos mesmos índices registrados em junho passado: 32%. Ou seja: aparentemente o brasileiro não associa a figura do presidente ao seu próprio Governo, o que revela a existência de uma patologia cujas causas ainda não puderam ser identificadas pela Ciência moderna.

Tudo pareceria estranho se não fosse óbvio: temos mais uma vez o retrato de todo arcabouço que foi montado no País com a finalidade de reeleger o presidente da República. De outubro para cá não houve alteração significativa que pudesse levar o brasileiro a pensar de forma diferente em relação ao Governo que ele se dispôs a reeleger. Partindo do princípio da coerência, isto nos remete a duas outras deduções: os institutos, à época, deturpavam os resultados das pesquisas em relação a essa insatisfação com o Governo, para promover o mote da reeleição. Dedução 2: essa insatisfação, embora existente, esbarrava no marketing montado para criar a imagem de que FHC “não tem culpa” de nada do que ocorre no País, pois tudo seria mero produto de uma terrível herança da qual ele estaria agora tentando livrar-se.

  Evidentemente todos sabemos que a política econômica em vigor é criação do próprio FHC, que a elaborou, para eleger-se, quando era ministro do hoje governador Itamar Franco. E pelo que sabemos também, não são apenas os trabalhadores e os funcionários públicos que reclamam dessa política econômica. São também os empresários, a sociedade civil de um modo geral e os que têm vergonha na cara em particular. E de resto o próprio patrocinador dessa invenção chamada FHC, precisamente o governador de Minas, que hoje está entre os mais ferozes críticos da política econômica em vigor.

Conforme se verifica, os institutos de pesquisa, embora sirvam basicamente para manipular eleições, têm também um papel tênue de revelar, aos que sabem ler nas entrelinhas, aspectos que passam despercebidos dos menos atentos. Um deles é a facilidade de que dispõem hoje os poderosos de manipular o eleitorado e produzir o resultado que lhes convém. E há ainda na pesquisa a confirmação do que já foi dito pelos que ainda sabem fazer cálculos neste país: FHC foi reconduzido ao poder, rigorosamente, pela minoria. Segundo o Vox Populi, o índice de popularidade do presidente é de 32%, que vem a coincidir com o percentual de votos que ele obteve para reeleger-se, com a inestimável – para ele, evidentemente – ajuda de uma legislação eleitoral forjada para garantir essa reeleição, ainda que pela minoria.

 

AUTOCRÍTICA

 

Antes do resultado de qualquer sindicância que possa ser levada adiante pelo governador Olívio Dutra, já são mais do que evidentes os motivos que levaram o ex-governador do Rio Grande do Sul, Antônio Britto, a mandar deletar todos os arquivos dos computadores que continham dados sobre sua administração: Britto tem vergonha de seu próprio passado.

 

PREMEDITADO

 

Tudo o que se diga no Brasil quanto ao hábito das autoridades governistas em apelar para sofismas será pouco, diante da constância dessas atitudes. O ministro da Previdência, Waldeck Ornélas, defendeu o projeto que retira 30 por cento das aposentadorias de viúvas de segurados, argumentando que isto se verifica “em quase todos os países do mundo”.

Quando fala em “quase todos”, Ornélas inclui, evidentemente, os países desenvolvidos, “esquecendo-se” de dizer que a renda de um aposentado nesses países é suficiente para garantir a sobrevivência em condições dignas, o que não ocorre no Brasil, na maior parte dos casos. A desvantagem do Brasil, aliás, não ocorre apenas em comparação com os países desenvolvidos. Como se sabe, aposentadoria está diretamente relacionada à média de renda salarial, e o Brasil figura entre os países com renda do Trabalho abaixo daquilo que se verifica “em quase todos os países do mundo”. Isto, no entanto, Ornélas não disse, como convém a todo sofista.

Aposentadoria nos níveis atuais, no Brasil, já é uma vergonha. Cortar 30 por cento, mais do que uma vergonha, é um crime.

 

 

FACILIDADES

 

A escalada para aumentar a CPMF já teve início, com a votação no Senado. A alíquota de 0,2% sobe para 0,38% nos 12 primeiros meses, e em seguida será fixada em 0,30%, com vigência para os 24 meses seguintes.

São as facilidades colocadas em prática pelo Governo, na base da pressão, para resolver os problemas de caixa provocados pela política econômica desastrosa, implantada pela equipe de FH. Apelidaram a CPFM de “imposto do cheque”, mas na verdade é o “imposto da incompetência”, de um Governo que erra à vontade, porque depois bota o povo para pagar.

 

 

ILEGITIMIDADES

 

O Governo vai insistir na idéia de cobrar previdência de quem já se aposentou. Faz parte do pacote de ilegitimidades que visa cobrir o rombo provocado pela incompetência dos tecnocratas que integram a equipe do reeleito. A Grande Imprensa (grande em quê?) apóia a medida, sem questionar exatamente este ponto: onde está a legitimidade em cobrar dos idosos a conta de mais um rombo provocado pelos incompetentes.

 

 

MORATÓRIA

 

O Governo promove arrocho salarial, faz campanha contra o servidor público, cria mecanismos para forçar a defasagem no valor das aposentadorias, apresenta projetos para cobrar Previdência de aposentados, quer aumentar a contribuição dos servidores ativos, corta as verbas já minguadas da saúde e da Educação, articula-se para cortar pensões das viúvas, cria e aumenta impostos na hora que bem entende. FH não pode se queixar do governador de Minas, nem de qualquer outro que venha a decretar moratória. Itamar Franco segue precisamente o mesmo exemplo do Palácio do Planalto: vale tudo, quando não há dinheiro em caixa.

 

ALARME

 

Atenção, poupadores. A reação do Planalto à moratória decretada por Itamar Franco, na voz do porta-voz, avisando que “confisco” e “moratória” são coisas do passado, tem cheiro de ameaça. O confisco da poupança, no Governo Fernando Collor, ainda está na memória dos brasileiros como uma das atitudes mais autoritárias e absurdas de que se tem notícia nos últimos anos. Mas afinal, quem se parece mais com o Fernando do que o Fernando?

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