De olho no lance

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Na televisão os melhores lances de futebol merecem repeteco, e o telespectador os aguarda ansioso na expectativa de rever grandes momentos ou de resgatar o que deixou de presenciar por descuido ou distração. Na política, o eleitor nem sempre fica à espera do repeteco, mas ele é reeditado com incômoda freqüência. Alguns lances da disputa entre Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva deixam evidente que, a menos que surja um lampejo inusitado de imaginação, a sucessão presidencial se encaminha para a repetitiva e monótona seqüência de palavras, imagens e atitudes.

A emenda da reeleição colocou nas mãos do candidato da situação uma arma inédita, de inquestionável potencialidade, que é a de fazer campanha estando no poder. Permite, por exemplo, que promessas e metas jamais consolidadas – como programas habitacionais, políticas de emprego e até reajustes salariais para o servidor, sempre tidos como “impossíveis” – passem a ser anunciados como se viabilizados num passe de mágica até então fora do alcance dos governantes. Apesar de todas essas armas, Fernando Henrique não abdicou do seu velho discurso e reincide em sua antiga mania de rotular as atitudes dos oposicionistas, uma prática que já lhe valeu quedas no IBOPE, mas cuja eficácia oscila dependendo do momento e do índice de precisão com que é empregada.

Na oposição a cantilena também não inovou em nada. O presidente do PT, José Dirceu, já chegou até  a “comemorar” por ocasião da divulgação de pesquisas que apontavam a manutenção dos índices de Lula, o que supostamente daria alguma margem de tranqüilidade à campanha. “Ficar no mesmo lugar, apesar do bombardeio do governo, mostra a fidelidade do eleitor petista”, avaliou certa vez, aparentemente esquecendo-se de que isto não será suficiente para vencer as eleições, uma vez que os números dessa “fidelidade” não garantem a vitória.

É aí que começam as evidências de eterno “repeteco”, que tira o brilho da disputa e acaba por transformar o pleito numa “obrigação” rotineira da qual alguns eleitores já pensam há muito tempo em fugir. Avaliações como a de Dirceu procuram esconder uma barreira que os setores tidos como “mais radicais” do PT não conseguem ultrapassar: a necessidade de alianças para que as oposições consigam somar, aos votos dos “fiéis”, também os dos demais insatisfeitos, que nem sempre comungam do mesmo credo político. Não se trata, evidentemente, de fazer aliança com qualquer um, como é a opção de FHC, mas de procurar possíveis aproximações e acordos, com a consciência de que as mudanças sem ruptura só se tornam possíveis quando intercaladas por uma fase de transição.

As armas de FHC e seus aliados não se resumem à emenda da reeleição, ao fato de contarem com a máquina estatal e com todas as facilidades que o exercício do poder concede. Está presente neste duelo também o jogo de palavras, as táticas de dissimulação e o abuso de sofismas que sempre caracterizou a política, em qualquer lugar do mundo. Para a oposição, fica evidente, é muito mais difícil vencer o pleito do que para os que já estão no poder e dispõem de todas as facilidades fora do alcance dos demais adversários, sem contar os golpes baixos, a contra-informação e o terrorismo barato, próprio dos representantes de oligarquias decrépitas.

Um dos componentes que transformam as sucessões brasileiras num interminável roteiro de monotonia reside exatamente neste aspecto: as disputas se resumem a um jogo de palavras, em que a situação simula fazer o que nunca fez, e a oposição, sem fazer o que deveria ter feito para sair vitoriosa, busca nas palavras uma saída – inatingível – para atrair eleitores que se sentiram repelidos pela ausência de atitudes com efetivo poder de atraí-los. Enquanto não compreenderem isto, as esquerdas no Brasil continuarão eternamente em busca do primeiro título, enquanto a direita – mais empenhada na disputa do que o time brasileiro do treinador turrão – continuará para muito além do penta.

 

VELHAS MALANDRAGENS 

 

O episódio dos contratos com estados e prefeituras publicados pelo Diário Oficial revela que, embora supostamente estejamos buscando a “modernização” do país, a prática de velhas malandragens continua sendo a arma preferida das raposas oportunistas. Apesar de a Lei Eleitoral determinar o dia 3 de julho como data final para a assinatura desses contratos para a liberação de verbas, só nos dias 7, 9 e 10 o Diário Oficial publicou mais de 900 convênios, segundo revelam jornais do país inteiro. O Governo afirma que foram assinados antes do dia 3, enquanto a oposição desconfia de que possam estar sendo publicados com data retroativa. No meio da confusão, o Tribunal Superior Eleitoral alega que faltam instrumentos para verificar a data real, embora seja evidente que o D.O. jamais economizou papel para publicar em dia as decisões administrativas. Há dois fatores presentes: a lei dá margem a esse tipo de manobra e ela acabou sendo supostamente praticada pelo Governo. Em ambos os casos, estaria caracterizado excesso de malandragem e nenhuma dose de modernidade.

 

CINISMO EDITORIAL

 

Certos jornais são capazes de tudo quando se engajam em uma campanha presidencial. Um grande jornal paulista chegou a publicar, em editorial, que os salários no Brasil estão agora com maior poder aquisitivo, em decorrência do Plano Real. Além de mais pobres, nos acham com cara de idiotas.

 

EQUÍVOCO EDITORIAL

 

Já começam a proliferar na praça os “analistas” que apontam “utopias” no programa de Governo das esquerdas. Uma delas seria o atendimento das metas propostas para a área de Saúde, que somente seriam alcançáveis se o orçamento do ministério fosse duplicado em relação ao atual. É fácil verificar que não existe nada de utópico quando a questão se resume a traçar prioridades. Afinal de contas, o dinheiro existe. Resta apenas determinar para onde ele vai.

 

SONHO DESFEITO

 

O Brasil só não ganhou o penta porque a seleção não estava tetra: estava tétrica.

 

CAIXINHA, OBRIGADO

 

Uma colunista bem informada do Rio de Janeiro dá a notícia de que o deputado Francisco Dornelles (PPB-RJ) viajou a Paris com a esposa para assistir à final da Copa do Mundo. Teriam ido – segundo a nota do jornal – sob o patrocínio da Renault francesa, a fábrica de automóveis que obteve benefícios fiscais para implantar o parque de produção de unidades no Brasil, durante a gestão de Dornelles como ministro da Indústria e Comércio.

 

ERRO DE POSIÇÃO

 

Descoberta a origem dos males gastrintestinais de Ronaldinho: confundiu a Copa com a Cozinha.

 

RECADO PARA OS LOBOS

 

No esporte, como na política, muitas vezes a arrogância termina em derrota. Mas o pior é quando a derrota termina em arrogância.

 

RECADO AOS LEITORES

 

Eu, jornalista, não devo nada ao Zé Galo.

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