Vida dura de escritor…

Uma vez eu li uma história engraçada num livro cujo autor nem me recordo quem é. Aliás, nem sei se a história é dele ou se faz parte de algum folclore. Ele conta que, quando era criança, e por sinal um criança muito sapeca, dessas “levadas da breca”, como se diz, um anjo lhe apareceu e fez a previsão: “Meu garoto, você vai ser escritor”. O menino então começou a pular de alegria. Ficou contente mesmo. Aí o Anjo o advertiu: “Não festeje não, meu filho: é castigo”.

Em outros países ser escritor pode realmente não ser castigo, mas no Brasil se aproxima muito disso. A gente percebe que pouquíssimas pessoas realmente lêem. Dá também um certo medo entrar numa livraria e ver tanta coisa publicada, apesar desse baixo índice de leitura. A primeira coisa que nós, escritores, pensamos, é o seguinte: “Meu Deus, como é que meu livro vai ser encontrado no meio disso tudo?”

O rock de Brasília já fez muito sucesso. Todos sabem que há bandas famosas que começaram em Brasília. Por que será que nenhum escritor de Brasília teve até agora “dimensão nacional”? As razões são muitas. Apesar da expansão dos meios de comunicação, que “aproxima” todas as regiões desse imenso país de contradições e de lutas, o fato é que a cultura que repercute mesmo é aquela produzida ou “alardeada” no famoso “eixo Rio-São Paulo”. E, por mais que as editoras neguem, há efetivamente um preconceito em relação ao que se produz em Brasília nessa área. Uma amiga escritora me revelou, logo por ocasião do lançamento do meu primeiro livro, que ouviu de uma editora do Rio a observação jocosa quando conheceu um texto interessante de um escritor de Brasília: “Não sabia que lá na Capital do Brasil há vida inteligente”. É lógico que a isso se somam muitos fatores, entre os quais – infelizmente – o imenso preconceito que se concretizou contra esta cidade devido à grande repercussão das atitudes negativas de alguns políticos. E até parece que todos eles nasceram em Brasília, ou que em outras capitais brasileiras não existe corrupção. Em resumo: vida inteligente não há é na cabeça de quem é preconceituoso, como é o caso dessa editora.

Há ainda um problema que precisa ser apontado, embora eu me exponha a uma atroz fúria por parte dos veículos de comunicação da Capital ao dizer isso: a nossa crítica literária incipiente, quase amadora, e também preconceituosa, que dá muito espaço para as obras literárias do famoso “eixo” e de outros países, mas que desprestigia o Autor de Brasília. Não é choro e não me refiro a mim, especificamente. Esse preconceito existe também na Imprensa de Brasília em relação a tudo o que se produz aqui. Doa a quem doer, essa é a verdade.

Senti isso na pele por ocasião do lançamento do meu mais recente livro, “A suíte é minha, lambisgoia”. Um jornal da capital até me recebeu muito bem, produziu várias fotos e agendou uma entrevista comigo. Esse meu livro, para quem não sabe, tem 415 páginas. É o mais volumoso entre todos os que eu escrevi até agora. Pois bem, cerca de duas horas depois de ir ao jornal comunicar que estava lançando o livro no dia seguinte, recebo o telefonema da repórter para me entrevistar sobre o lançamento. Ora, ninguém lê um livro de 415 páginas em duas horas, mas ela insistia em dizer que em minha narrativa havia a característica “predominante” da “generalização”. Eu expliquei que era exatamente o contrário: eu mostrava que há perfis humanos, mas sempre com a preocupação de deixar claro que não se pode colocar “rótulos” nas pessoas, porque cada uma é de um jeito. Apenas, como não queria colocar nomes nos personagens, o que talvez (não sei) seja até um ineditismo, eu acabei colocando “apelidos” que substituíam os nomes. Mas a colega, absolutamente decidida a “comprovar” que eu estava “generalizando”, embora tenha feito uma matéria até interessante sobre o livro, saiu-se com a citação de uma frase que, segundo ela, não deixava dúvidas quanto a esse viés “generalizante” na minha criação literária. A frase é citada por ela na matéria em questão, referindo-se à personagem “A recalcada”. Eis a frase: “Muitas vezes é feia tanto por dentro como por fora…”

Ato falho da repórter “transformada” por ela mesma em “crítica literária”. Eu já vi “frases generalizantes” começando por expressões como “Todas as vezes”, “todo mundo”, “invariavelmente” e coisas do tipo. Agora, francamente, frase generalizante começando por “Muitas vezes…” Essa eu nunca tinha visto.  

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