Por um novo milênio de fato

Arquivo impresso não localizado

Publicação: final dos anos 1990

Jornal Terceiro Tempo – RJ

O verdadeiro milênio tem início agora, o que significa que todo ser humano erra, inclusive Nostradamus, que teimava em afirmar que não chegaríamos lá. Aquele “novo milênio” do ano passado era engodo, bem próprio do mundo capitalista, sempre desejoso de multiplicar seus lucros. Assim, venderam-se passagens aéreas, terrestes e marítimas, além de estadas em hotéis luxuosos, por dois anos consecutivos, para o “réveillon do século e do milênio”.

Neste final de século em que escrevo, todos certamente estarão se preparando para festas muito especiais. Afinal, nova passagem de século alguns que festejam hoje até terão chances de assistir, porque o homem pode viver mais de 100 anos (uma perspectiva que o INSS está ocupadíssimo em destruir, mantendo médias generosas de longevidade apenas nas estatísticas, a fim de nos subtrair cada vez mais com o fator previdenciário); mas novo milênio certamente é um acontecimento inusitado na vida de todos nós, que somente se repetirá daqui a algumas reencarnações.

Como convém a todo final de festa, os bêbados caíram pelas tabelas e alguns fatos surpreendentes nos deixaram boquiabertos. Certamente não estou falando da ascensão do São Caetano ao status de grande time de futebol, nem de o Brasil ter se destacado mais no tênis do que no velho esporte que nos tornou famosos no mundo. Há fatos mais reveladores de final de temporada, sendo o maior deles, certamente, a derrocada do mito americano de perfeição democrática, com a eleição vencida no “tapetão”. Se o mundo fosse menos hipócrita e mais corajoso, teríamos enviado a tempo “observadores” às eleições americanas, a exemplo do que eles fazem com as republiquetas cujos sufrágios consideram de honestidade duvidosa. Agora sabemos que até mesmo altos escalões se envolveram em fraude eleitoral nos Estados Unidos. Cai por terra o mito, portanto: são eles que agora têm que ser fiscalizados.

De qualquer modo, por lá, ainda há mais sinais de progresso. O novo presidente eleito pelos tribunais, a primeira coisa que disse, antes mesmo de assumir, foi que iria diminuir os impostos. No Brasil o balanço é de que crescemos menos do que o aceitável. Os especialistas dizem que nosso crescimento médio nas duas últimas décadas foi de 2,11%, quando deveria ter sido de no mínimo 6%, para fazer frente à demanda por emprego. Resultado: desemprego e salários cada vez mais baixos. E, contraditoriamente, ascensão vertiginosa da arrecadação tributária. Em outras palavras: estamos mais pobres, mas pagamos mais impostos. O Brasil entra no século XXI vivendo a derrama do século XVIII, porque o Governo, embora nada produza, aumenta a cada ano sua voracidade.

Os reflexos disso tudo são mais complicados do que parecem. Num país que apregoa o império do capitalismo privatista, as empresas não detêm capacidade de investimento. Consequentemente, não geram empregos, e a economia, estagnada, produz riquezas muito aquém do minimamente necessário, quando na verdade a receita do revigoramento é que deveria produzir o aumento da carga tributária, sem a necessidade de se inventar a toda hora novas leis para sugar cada vez mais o contribuinte. Vamos portanto ter que repetir o novo milênio, mais uma vez, no ano que vem, porque afinal essa nova etapa na vida de um país e de um povo não pode se resumir a uma grandeza meramente cronológica.

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