Leia um capítulo – Sinfonia para Justine

Vizinhos de coração

 

Ficou parecendo a Hernandez que, como estavam num país ainda estranho para Justine, uma vez que ela havia ido para a França com apenas três anos de idade, ambos morariam sob o mesmo teto. Mas não durou mais do que três dias. Ela viera disposta a morar no seu próprio apartamento, de modo que dormiu na casa de Hernandez apenas pelo período necessário para arranjar moradia. “Não sirvo para casar-me”, avisou-lhe, mas ele não se decepcionou desta vez, em primeiro lugar porque já a conhecia, em segundo lugar porque na França era assim: amavam-se com paixão e ardor, mas cada um ficava no seu canto, embora admitissem passar dois ou três dias, ou um final de semana, ou uma semana inteira – o que foi um recorde – um na casa do outro, dormindo na mesma cama.

Ela se apresentaria na escola onde daria aulas e começaria logo na semana seguinte, mas demorou a decidir-se sobre a ida ao seu antigo país não apenas porque tinha dúvidas, mas também porque precisava juntar dinheiro para não depender de ninguém até obter o primeiro salário. Foi com emprego certo – dependia apenas de uma entrevista pessoal – por suas qualificações, mas estava ciente de que nessa transição entre a chegada e o primeiro salário haveria um período de dificuldades, de procurar imóvel, de mobiliar a casa com o mínimo necessário, de familiarizar-se quanto às exigências de alimentação e transporte no dia-a-dia. “Mas você pode economizar, ficando lá em casa por mais algum tempo”, chegou a ponderar Hernandez, apenas a título de tentativa, ao que ela respondeu que a acomodação é um mal humano e que não poderia arriscar-se a matar a vontade de permanecer convivendo tão bem com ele, lançando-se ao desafio de uma convivência conjugal sem que ela estivesse preparada, “algo que provavelmente nunca me ocorrerá”, avisou-lhe.

Hernandez não se importou a ponto de entristecer. Estava com Justine ali perto. Quando acordasse de noite, não olharia mais para as paredes, solitário. Sabia que, num momento de saudade, bastava pegar o telefone e pedir que ela viesse, ou que ele próprio fosse à casa dela, que isto por si só seria suficiente para que ambos – se aos dois agradasse naquele determinado instante – se encontrassem com o mesmo ardor no meio da noite, beijando-se, mordendo-se levemente, como gostavam de fazer, ele com mordidinhas leves em sua orelha, ela mordendo-o de leve nos ombros, como apreciava nos momentos do gozo supremo.

Para garantir a liberdade de se encontrarem no meio da noite, quando a chama se acendesse em ambos, trataram de morar perto um do outro, o bastante para que não se vissem quando necessitados de ficar sozinhos, e o suficiente para que se avistassem quando quisessem. Era uma distância calculada para não escravizar a convivência com a rotina e para manter um ao alcance do outro quando fosse agradável a ambos. Mas isto – estavam plenamente convencidos – não era algo aceitável para a maioria dos casais. “Somos assim, então vamos permanecer assim”, disse-lhe ela, e tomaram café da manhã juntos no primeiro dia em que ela se mudou para o seu próprio apartamento.

A saída da França, a despeito de sua busca eterna pela liberdade de lutar pelo que lhe desse vontade de fazer, encheu-a de dúvidas. A mãe a encarava como única companhia, solidária e mesmo cúmplice nos desencontros, e além do mais tinha a preocupá-la o irmão, feliz mas desprotegido nas mãos dos homens ditos normais, de modo que era bom sempre estar por perto. Ela vacilou ainda na antevéspera de partir, quando alguém a quem considerava um amigo a surpreendeu com uma expressão vulgar a respeito do irmão, ao vê-lo caminhar pelas ruas com o eterno paletó amarrotado, a valise, o bloco de anotações e as conversas sem nexo. “O doidão continua uma figuraça”, disse-lhe, e ela parou de chamar aquele homem de amigo.

Recorreu ao pai para que, mesmo desgarrado da convivência em família, mantivesse as coisas sob controle. “É seu filho, e precisa de proteção”, ordenou-lhe, e obteve a promessa de que não se descuidaria nem do filho nem da mulher a quem era infiel naquele quarto 42 de gemidos, em busca do que ele concluíra que ela não poderia lhe oferecer.

E Justine partiu assim, mais aquietada em seus temores, depois de abraçar o irmão e perceber que ele estava triste mas não perdia a alegria de percorrer as ruas naquela eterna andança dentro do seu próprio mundo indecifrável para os que estavam fora e se julgavam normais, ainda que infelizes, em tantas circunstâncias.

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