Leia um capítulo do livro A suíte é minha, lambisgoia

A lágrima

 

A gente acordou e o sol já tinha acordado antes. Eu abri os olhos e a mulher dos olhos claros abriu os olhos em seguida. Eu agora via os olhos dela à luz do dia: eram castanhos claros, e aquele azul e aquele verde deviam ser reflexo da luz artificial. Eram olhos castanhos claros lindos. Ficamos imóveis por uma fração de segundos, porque eu estava deitado de frente para ela, e ela estava deitada de frente para mim. Ela abriu um sorriso, assim, em silêncio. Foi um espetáculo melhor do que ver o sol acordar.

Nós percebemos que o amigo dela e a namorada dele já tinham se levantado. Os dois estavam na cozinha. Tinham encontrado uns pães meio duros e colocaram no forno para esquentar, e já estavam tomando café. Puxa, esse sujeito é atirado mesmo, em pensei, mas não falei nada. Eu tinha conhecido aquela turma fazia umas três ou quatro semanas, por aí, mas a gente não se encontrava todo dia, é lógico. Era mais nos fins de semana, ou num dia ou outro na semana, depois do trabalho. E naquela noite dos marcianos em que eles me chamaram para fazermos um lanche eu nem precisei ir no meu carro: eles foram me apanhar em casa, e de lá foi que a gente resolveu ir ver os discos voadores. Não vimos os marcianos no sítio dele e nem vimos o sol nascer da varanda da minha casa, como a gente pretendia ver. Mas valeu pacas. A gente se sentou na cozinha e eu expliquei que não tomava café, porque a cafeína enfraquece os ossos. Aquele pacote de café que eles encontraram era da empregada, que tomava café todo dia. Eu comi uns pedaços de queijo, enquanto a mulher de olhos claros, que não colocou de novo a fitinha no cabelo, tomava um pouco de café com aqueles pães amanteigados que o casal tinha preparado no forno. Mas o cara demonstrou que não era tão folgado assim. Depois que eu expliquei que o café era comprado para a empregada, ele fez questão de lavar a louça e de não deixar nenhum vestígio de que havia tomado o café. Eu disse que não precisava, expliquei que era eu quem comprava o café, expliquei que dava folga para a empregada no sábado e no domingo, e em troca combinei com ela que eu não lavaria a louça de final de semana. Mas ele insistiu e acabou deixando tudo limpinho.

O sujeito disse que ia retornar à chácara, pois precisava pagar o caseiro. Ele não fez o pagamento de noite porque o caseiro já estava dormindo com a família. Nós nem vimos o caseiro, a mulher e os filhos: ele só contou para a gente que eles estavam dormindo. A mulher dos olhos claros e a namorada do sujeito, é lógico, já deviam conhecer o caseiro, pois iam ao sítio há mais tempo do que eu. O sujeito perguntou se a gente queria retornar à chácara para passar o dia. Tinha um riacho perto, umas goiabeiras. Eu não estava a fim. O que é que eu vou fazer num sítio? O terreno normalmente é acidentado, não dá para eu andar direito. A mulher de olhos claros esperou eu dar a resposta para dizer depois que não estava a fim de ir também. Como o meu carro estava estacionado na garagem da frente, eu tinha aberto o portão da área verde para o sujeito guardar a caminhonete, de noite, depois que a gente resolveu dormir na varanda. Ficava mais fácil pegar os colchonetes, os cobertores, as coisas todas, porque eu não tinha muita certeza se tinha cobertor suficiente em casa para cobrir todo mundo. Eu e a mulher de olhos claros fomos até a área verde para abrir o portão para o casal ir embora. Enfim, sós. Nós.

A gente subiu de novo ao segundo andar e ela começou a vasculhar minha estante. “Você tem livro pra cacete”. Foi olhando os títulos, um a um. Achou o meu livro na estante. “Não é você?”. Puxou o volume e viu minha foto na orelha do livro. “Seu sacana: você nunca me disse que é escritor”. Eu mostrei o outro livro que eu já tinha editado. É lógico que eu dei de presente os dois para ela. Ela abriu de novo aquele sorriso lindo, e estava linda, sem aquela fitinha no cabelo. E eu fiquei com medo de me apaixonar, porque eu tinha saído de uma relação de trinta anos e queria curtir uma liberdade plena, e se eu me apaixonasse eu não poderia curtir essa liberdade. Eu não posso me apaixonar agora. Eu só posso me apaixonar daqui a uns cinco ou dez anos, eu dizia para mim mesmo, enquanto eu dava outro beijo na boca da mulher de olhos claros.

“Gozado a forma como você falou: ‘você nunca me disse…’. Como se a gente se conhecesse há um tempão. Esse ‘nunca’ é como se a gente já se conhecesse há um tempão, porque ‘nunca’ significa muito tempo”, eu brinquei com ela.

“Mas a sua mulher tinha tanto motivo para dar aquela bofetada?”, ela perguntou, depois de a gente ficar um tempão juntos, curtindocurtindocurtindo, juntosjuntosjuntos. Ela quis voltar ao assunto. Motivo a mulher devia ter, eu respondi. Todo mundo tem um motivo para fazer as coisas. O sujeito que rouba também tem um motivo. Só que os motivos explicam, mas não justificam. Eu também tinha motivo para ficar irritado com minha filha e para gritar com ela, quando ela me respondia de forma atrevida. Mas eu não deveria ter gritado nunca. E me odeio por ter gritado.

Eu entrei no quarto da minha filha naquela noite da bofetada e disse que queria apenas conversar com ela. Como pai que conversa com a filha. São coisas de adolescente, o que ela fez ou deixou de fazer ou de dizer. Na adolescência é assim: a gente faz e desfaz, com uma facilidade incrível.

Eu fui um adolescente muito compenetrado, deixei de fazer muitas coisas que deveria ter feito. De algumas me arrependo; de outras, não. É lógico que não dá para se arrepender de não ter feito que nem o vizinho do prédio em frente ao meu, que pegava um carro do pai e saía correndo a quase cento e cinqüenta por hora. E podia se arrebentar, ficar tetraplégico. De não ter feito isso eu não me arrependo, porque sempre achei que era imbecilidade fazer esse tipo de coisa, arriscar-se a ficar tetraplégico. Se estiver escrito no nosso destino, se é que isso existe, a gente não pode fazer nada para impedir. Mas provocar já passa a ser um ato de burrice. E burrice, como eu disse, me irrita tanto que me faz gritar de raiva.

É lógico que eu também não estou dizendo que todo comportamento indevido deve ser visto como natural, só porque se é adolescente. Tem uns comportamentos que podem ser encarados como “coisas de adolescente”. Têm outros que são inaceitáveis, independentemente da idade. Mas o que me interessava ali não era julgar comportamentos. Era levantar o astral da minha filha, não deixar que sua auto-estima ficasse demasiadamente abalada.

Antes da adolescência eu já era um cara muito comportado para o meu gosto. Uma vez eu fui ao cinema com uma namorada, de mãos dadas. E quando eu saí, um colega que estava comigo me disse que o meu pai estava no cinema também. Eu fiquei morrendo de vergonha, achando que o meu pai tinha me visto com a namorada. Era bobagem ficar com vergonha de uma coisa dessas, mas é que eu era muito comportado. Depois de muitos anos, fiquei imaginando que o meu pai certamente teria dado até risada se tivesse ficado sabendo da minha preocupação.

E minha filha chorava muito naquela noite. E era um choro muito verdadeiro. E, porra, não me interessa se ninguém vai acreditar, porque eu só devo satisfações a mim mesmo e a Deus: eu não gosto de ver ninguém chorar. E pior ainda é quando acontece com as minhas filhas. Eu não agüento vê-las chorar. E aquele choro era muito verdadeiro, e muito sincero, e muito doído e muito humilhado para que eu não sentisse uma dor muito grande ao ver aquele choro. E não me perguntem de novo: eu já expliquei. E eu até me esqueci de perguntar se eu tinha mesmo dito aquele negócio de “foda-se” da forma como a mãe dela disse que ela disse que eu disse. Agora não importava mais. Eu só queria levantar o astral da minha filha.

E eu disse pra minha filha: não estou aqui para julgar você, porque eu também já fui adolescente e sei que é uma idade de acertos e de desacertos; uma idade em que a gente aprende se machucando, muitas vezes. Quero dizer que eu e sua mãe te amamos muito, eu disse a ela. Que você era bem pequenininha e deu sapinho na sua boca e ela cuidou de você com muito carinho. Que a gente chorou juntos quando você tomou a primeira injeção, e a gente viu que, pra dar a injeção depressa, pra não demorar muito e não juntar fila na enfermaria, a enfermeira tinha colocado uma agulha muito grossa. E eu e a sua mãe ficamos cada um de um lado da maca, e demos as mãos um ao outro, e choramos quando você tomou aquela injeção com aquela agulha enorme. Você era nossa primeira filha. Doeu muito aquela injeção.

E ela foi uma grande mãe, cuidou muito bem de você o tempo todo. Você era criancinha e ela cuidou bem de você. Eu também te amei e ainda te amo muito. Mas é tão muito que eu nem sei dizer o quanto é isso. E eu também me lembro de uma cena que jamais saiu da minha cabeça, dos meus olhos, da minha alma. Eu tinha acabado de trabalhar de manhã, de trabalhar de tarde, de trabalhar de noite. Eu tinha ido a uma reunião no jornal pela manhã, depois fui trabalhar à tarde, e depois ainda fui dar aula à noite. E eu cheguei em casa exausto e tinha um colchão na sala, bem em frente à televisão, ao lado de uma cadeira de balanço daquelas antigas, porque naquela época a gente não tinha dinheiro para comprar um sofá muito caro; então, botava um colchão em frente à TV, para ficar confortável de assistir, encostado numa almofada. E eu chegava esgotado, porque tem aluno que a gente agüenta, mas tem aluno que a gente não agüenta de jeito nenhum. E eu cheguei fatigado e larguei o corpo sobre o colchão, e liguei a televisão e não queria pensar em nada. Televisão é assim pra mim: uma forma de não pensar. Quando a gente lê um livro a gente pensa, quando a gente joga pôquer a gente pensa, quando a gente joga xadrez, porra, a gente pensa pra cacete. Mas eu, pelo menos, quando vejo televisão, quase não penso nada. Sento-me lá em frente à televisão e não penso em nada. Era assim que eu fazia. Era a forma de eu descansar. Eu me sentava em frente à televisão e não pensava em nada. Se eu pegasse um livro e fosse ler, se eu fosse jogar xadrez, se eu fosse jogar pôquer eu ia me cansar com isso tudo, porque eu pensei e pensei e pensei o dia inteiro, e ia ter que pensar de novo. Então eu me sentei diante da televisão e consegui ficar sem pensar nada. Era assim que eu fazia toda sexta-feira quando chegava cansado e não queria pensar em nada.

Aí a sua mãe veio e me disse que você não estava deixando ela dormir. E que eu ficasse com você, porque você estava irrequieta e fazia barulho e chorava e não deixava ela dormir. E eu estava lá, deitado no colchão, na frente da TV, sem pensar em nada. E então eu disse, meio brabo: senta aí quietinha e sossega, que o papai quer descansar. E os seus olhos se encheram de lágrimas. Não chegaram nem a escorrer direito pelo seu rosto. Apenas surgiram nos seus olhos, mas eu vi, eu vi você chorando bem pouquinho, porque você queria ficar com o papai, e o papai, cansado, falou meio brabo com você que estava fatigado e que também precisava descansar. Mas o que você queria mesmo era ficar numa boa com o papai, brincar com o papai, fazer com que eu brincasse com você. O que você queria era mesmo sorrir com o papai, brincar com o papai, falar alguma coisa com o papai, embora nem falar direito você soubesse ainda. E o papai falou meio chateado que queria descansar. Que decepção você deve ter tido: você queria um papai alegre, sorridente e brincalhão, e o papai estava chateado porque estava exaurido em suas forças. Mas o papai não tinha o direito, não tem o direito mesmo de ficar cansado, quando a filha quer ficar com um papai alegre, sorridente e brincalhão. O cansaço tem que passar de vez, ou então a brincadeira tem que se transformar numa maneira de descansar. O papai não pode dizer que está cansado e que você fique quietinha no seu canto, porque uma lágrima surgiu nos seus olhos, duas lágrimas surgiram, uma em cada olho, e eu nunca mais me esqueci daquelas lágrimas e do seu rostinho triste, porque o papai não queria brincar, e os seus olhos estavam brilhando, mas eram as lágrimas que faziam os seus olhos brilharem. E o papi, como você às vezes me chama hoje, e eu gosto tanto que me chame assim, o papi estava de fato exausto e não tinha o bom humor suficiente para os pais que precisam brincar com as filhas que precisam brincar com eles. E aquelas lágrimas doeram de novo na alma. E eu nunca me esqueci daquelas lágrimas. E eu não sei onde doeu aquilo, porque doeu na alma, e alma a gente não vê. Só sabe que tudo o que dói na alma dói muito.

E você, tantos anos depois, já adolescente, estava chorando na cama, porque tinha levado uma bofetada.

Papai não quer saber dos motivos, porque ninguém pode tentar se justificar, dizendo que aquela bofetada “era a única maneira”; que não haveria outra forma. Porque, se fosse assim, quando eu grito, eu também poderia  me justificar: gritar era o jeito.

Só queria dizer que te amamos muito, que cuidamos muito bem de você, com muito amor e carinho o tempo todo, um amor muito verdadeiro e sincero. E que também erramos muito ao longo de todos esses anos, como todos os pais erram, e a gente não podia voltar no tempo e passar uma borracha, porque é impossível voltar no tempo. E que então a gente não tinha o direito de errar mais. E eu sentei-me diante de você, e falei, e falei, e disse que o único juiz de você tinha que ser você mesma: se você errou, minha filha, não faça mais, ainda que seja coisa de adolescentes. Você tem pai e tem mãe para te ajudarem a acertar sempre, ou pelo menos na maior parte das vezes, porque ninguém é infalível. Confie nos seus pais. Eu não vou julgar você. Quem deve julgar você é você mesma,  com sinceridade, até porque a gente acaba quase sempre pagando muito alto pelos nossos erros, e já é uma barra pesada, quanto mais ainda ser castigado pela mãe ou pelo pai. E eu te amo, e a sua mãe te ama, e a gente não pode errar de novo o tanto que a gente errou durante esses anos todos. Eu não quero mais ver aquelas lágrimas que eu vi quando o papi não quis brincar com você num dia em que estava exaurido e não tinha o bom humor indispensável aos que têm a obrigação de brincar com a filha pequenina que não consegue dormir. Eu agora quero só te proteger, te orientar, te educar, fazer você feliz, sem nunca te punir, sem nunca te julgar. Eu já gritei com você e não quero gritar mais. Eu já perdi a paciência com você e não quero perder mais. Minha filha, eu te amo mais do que a mim mesmo. Pode ser considerado piegas dizer isso, mas é verdade. E se alguém achar piegas, foda-se. Se alguém achar piegas eu posso até gritar bem alto: “Foda-se”. Taí um grito do qual eu não vou me arrepender, porque o meu amor por você só pode ser medido mesmo com a régua do infinito. Eu te amo que nem sei o quanto. Eu amo muito você, amo muito sua irmã, quero que deixem de brigar, quero que sejam amigas. Se você tem ciúmes dela, porque ela é mais nova e tomou um pedacinho do seu reino, que até então era só seu, não ligue não. Ela não tomou nenhum pedacinho do seu reino, porque o seu reino é o coração do papai e o coração da mamãe, e vocês duas cabem lá sem que ninguém roube o lugar de ninguém. Tem lugar de sobra para vocês duas se amarem e serem amigas e serem companheiras e não brigarem nunca. Então, o universo é isso: o amor. Não tem nada no universo melhor do que o amor, embora, contraditoriamente, ele às vezes nos faça sofrer tanto. Mas não deixe de amar mesmo assim.

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