Brasília vai virar Rio de Janeiro

Jornal Terceiro Tempo – Edição não localizada nos arquivos

Publicada no final dos anos 1990/ano 2000

As causas da violência nos grandes centros urbanos, embora facilmente diagnosticáveis, são ainda ignoradas por políticos inescrupulosos que, pelo seu comportamento predominantemente populista, teimam em alimentar esse  verdadeiro barril de pólvora que se constitui hoje numa das principais preocupações de qualquer brasileiro. O Rio de Janeiro ocupa hoje lugar de destaque nessa triste trajetória, com sua população assistindo impotente ao fortalecimento do poder paralelo dos bandidos.

A violência tem várias origens, mas seguramente uma das que predominam é a falta de planejamento urbano, resultado do aumento desordenado da população. Esse fenômeno da concentração urbana se origina em parte da inexistência de uma reforma agrária séria no País, o que tem provocado o êxodo contínuo da população rural para as cidades. Embora todos os países desenvolvidos tenham realizado a reforma agrária, no Brasil a predominância do pensamento conservador das elites sempre encarou essa medida indispensável como “coisa de comunista”, do que resulta hoje a inexistência de produção agrícola em volume condizente com as dimensões do País.

Quando esse fluxo migratório é incentivado, a situação se torna ainda mais grave. É precisamente o que ocorre em Brasília, onde a propaganda da farta “distribuição de lotes” acelera e intensifica a imigração, provocando um inchaço que Brasília, por ser uma cidade predominantemente administrativa, não tem condições de suportar. A tática do atual Governo do DF em angariar votos é bastante conhecida. Resume-se em atrair para a cidade uma leva gigantesca de desesperados, que se transformam rapidamente em massa de manobras para a perpetuação no poder desses falsos “beneficiadores do povo”.

Que essas pessoas aparentemente beneficiadas por políticas assistencialistas se transformem em eleitores “naturais”, por “gratidão” diante das benesses conquistadas, ainda se pode compreender, até porque em sua maior parte são cidadãos que não dispõem de visão suficiente para entender o prejuízo que lhes é imposto pelas políticas de natureza populista. O mais assustador é que segmentos da sociedade que se dizem “esclarecidos” embarquem na mesma viagem sem retorno do caos urbano que vem sendo imposto à Capital federal.

A esmola fácil é reconhecidamente a melhor forma de perpetuar a pobreza. Dá-se pão e leite, entre outras aparentes “ajudas”, e subtrai-se a oportunidade de ascensão social. Governo não foi feito para dar esmolas, e sim para planejar políticas públicas que permitam a ascensão social das camadas menos favorecidas. Assim, o pobre que hoje recebe pão e leite sente-se “beneficiado” porque não tem condições de avaliar que essa política assistencialista se destina a manter seu grau de pobreza, oferecendo-lhe o mínimo para a sobrevivência sem a menor perspectiva de ascensão social. É pobre e continuará pobre, transformando-se numa espécie de lúmpen “bem assistido” e “eternamente grato” porque, em sua miopia de subnutrido e alienado, só consegue enxergar um aparente “pai” que o mantém vivo, embora no limite da sobrevivência.

No caso de Brasília, o incentivo ao fluxo de imigrantes chega ao limite da irresponsabilidade. Não é preciso ser economista, administrador ou sociólogo para constatar que Brasília não tem condições de absorver essa massa de mão de obra desqualificada, tendente a vagar pelos tortuosos caminhos da marginalidade e, muitas vezes, da criminalidade. Não se trata aqui de externar o pensamento preconceituoso de que todo pobre se torna bandido, mas seria excessiva manifestação de hipocrisia ignorar que a violência se alimenta da multiplicação de miseráveis que muitas vezes se desesperam em busca de uma “ascensão” que não lhes é oferecida pelas políticas públicas, exatamente em razão da existência ainda de populistas que preferem dar esmolas a oferecer cidadania e possibilidade de ascensão social. Não se pode ignorar, por exemplo, que hoje o tráfico de entorpecentes e toda forma de crime organizado se fortalece e se multiplica a partir da arregimentação de jovens sem perspectiva de vida, atraídos pela miragem de polpudas “remunerações” que a criminalidade organizada coloca ao seu alcance.

Brasília já oferece mostras inequívocas de que está à beira desse abismo. O aumento da criminalidade e da mendicância é insofismável subproduto da irresponsabilidade de governantes que não têm compromisso algum com o futuro da Capital. É necessário e urgente que as classes ditas “esclarecidas”, ao contrário de contribuírem e impulsionarem essa irresponsabilidade, se conscientizem do papel que lhes cabe de estancar o agravamento desse caos, antes que seja tarde.

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