Ano novo, velhos problemas

Jornal Terceiro Tempo – Edição não localizada nos arquivos

Publicada em 1997

Há exatamente um ano, ao nos referirmos à chegada de 1998, fizemos um balanço de 1997, publicado em vários jornais, sob o título de “Saldo negativo”. Agora é a vez de tentar festejar a chegada de 1999, mas constatamos que nada mudou ou, o que é mais preocupante, muita coisa mudou para pior.

Naquela época referimo-nos ao propagado alento que supostamente poderiam representar as reformas na Constituição, apontadas pelo Governo como o caminho para corrigir distorções e colocar o Brasil em condições de competir no cenário internacional. Hoje, a palavra “internacional” está associada a crise econômica. O Governo não se cansa de atribuir à “conjuntura internacional adversa” o agravamento de nossas dificuldades de caixa, e de tentar justificar mais uma vez a adoção de medidas amargas de correção, que no Brasil parecem jamais ter fim.

As tão festejadas “reformas” não são mais motivo de alívio. Elas agora deixam de “resolver” nossos problemas para, quando muito, apenas “amenizá-los”. Muda-se hoje a Constituição, mas nunca é o bastante, e a rota de sacrifícios parece prosseguir a cada nova alteração da Carta. Todas as mudanças, apontadas como “salvadoras” quando são propostas, acabam se resumindo a “remendos” parciais de um problema maior cujo destino parece ser o de manter-se insolúvel.

Naquele artigo de um ano atrás referíamo-nos à crise das Bolsas de Valores e ao desemprego como componentes desesperadores em meio à falta de perspectivas caso não houvesse essa “correção de rumos”. Há pouco tempo, era o próprio Governo quem se referia a essa crise nas bolsas e ao crescimento do desemprego como componentes novos desse cenário que supostamente teria sido agravado por fatores externos.

“É preciso encarar a realidade de frente”, dissemos à época. E é incrível como no Brasil expressões como esta podem ser repetidas à exaustão, pois nunca deixam de ser atuais. Os problemas são velhos, mas há quem se negue a enxergá-los. A sociedade civil, por meio de seus representantes organizados (FIESP, sindicatos, associações de classe) começa a formar um coro uníssono contra a política econômica em vigor. Na maior capital do País realizam-se manifestações de peso, unindo empresários e trabalhadores, todos apontando um mesmo inimigo, a dilacerar a produção e aumentar a falta de perspectivas.

Se pessoas com visões e interesses tão díspares, seguidoras de filosofias e ideologias tão irreconciliáveis, começam a apontar para uma mesma direção e a identificar um mesmo inimigo, é porque a situação está muito pior do que se imagina, haveremos de concluir. Mas será que isto também não representa um indício claro de que convergências de tal amplitude deixam antever a perspectiva concreta de equacionamento, a partir de um diagnóstico que parece evidente para tanta gente? Chegamos a um momento – é o que parecem revelar manifestações como a ocorrida em São Paulo – em que o Brasil se divide em dois: de um lado a sociedade a apontar os problemas e as soluções, e de outro o Governo, aparentemente isolado, a recalcitrar nos erros e a prescrever as mesmas receitas, cujo único resultado tem sido o agravamento da crise e a prescrição em série de novas medidas amargas, sempre e eternamente.

O próprio presidente da República, que vez por outra repele as previsões pessimistas, já reconheceu que deverá enfrentar “o pior ano” de sua administração. Torçamos para que o “pior ano” deixe de ser sempre o “próximo”, pois do contrário, ao final de 1999, vamos enfrentar a mesma ladainha. E previsões como esta estarão resumidas a figuras de retórica, destinadas apenas a dar a impressão de que podemos sentir saudades de um tempo de bonança que jamais ocorreu, apenas pelo fato de haver sempre uma perspectiva ainda pior pela frente.  

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