Abaixo de qualquer suspeita

Arquivo impresso não localizado

Jornal Terceiro Tempo – RJ – edição nacional

Publicação: final dos anos 1990/ano 2000

Um dos jornais onde trabalhei ao longo de todos esses anos publicou certa vez uma foto que se tornou polêmica. Havia uma tenda em forma de circo armada em frente ao Congresso Nacional, e um fotógrafo astuto posicionou-se de modo a fazer coincidir a tenda com uma das famosas conchas do parlamento. Ficou óbvia a comparação da Casa Legislativa a um circo armado em pleno Planalto Central, e o que se viu no mesmo dia, diante daquela foto estampada em primeira página pelo jornal, foi uma saraivada de protestos dos políticos contra algo que consideravam uma ofensa inadmissível.

Passados mais de quinze anos, leio num jornal o Congresso ser comparado a um bordel, sem que se levantem vozes em sua defesa. Diríamos que é sinal dos tempos, ou uma consequência da democracia, mas o fato é que não há democracia nenhuma que comporte o silêncio caso nossa genitora seja comparada a uma mulher de má fama, especialmente se ela de fato for merecedora de defesa. Por mais que possamos nos orgulhar da liberdade de expressão, haveremos sempre de defender quem mereça ser defendido contra ataques ou expressões injustas, porque uma das marcas da verdadeira democracia é exatamente a de combater as injustiças. O que nos leva a imaginar que, se o Congresso já não é defendido quando comparado a um bordel, quando antes o era quando comparado a um circo, mais do que um sinal dos tempos este é um indício seguro de que ele não merece mais ser defendido, o que seguramente pode ser diagnosticado como uma preocupante evidência de que a democracia está fracassando no Brasil.

A comparação com o bordel surgiu por parte de uma das centenas de pessoas que circulam pelo Congresso diariamente, diante do festival de acusações que temperou a disputa pela Presidência das duas Casas. “Ladrão” é o mínimo que se ouviu em relação aos candidatos, notadamente no Senado, onde ataques de toda ordem surgiram entre as correntes adversárias. Mas o que dá ao Congresso a aparência de um bordel não é simplesmente a existência de numerosas acusações, e sim a indiferença com que esses ataques são encarados por todos quantos se entreolham e se xingam fartamente. Pior do que isto: as pessoas não apenas convivem pacificamente com essas acusações, como não se dignam sequer a respondê-las com algum grau de seriedade. “Ser corrupto” ou deixar de sê-lo passou a ser “detalhe” secundário na disputa – ao que tudo indica -, diante da indiferença com que se comportam tanto candidatos como eleitores em meio ao xingatório reinante.

Já se disse mais de uma vez que o Congresso é um retrato da sociedade. Não há que espantar-se com o fato de no Legislativo haver ladrões e desonestos de toda espécie, porque o Congresso é eleito pelo povo, e entre os eleitores há obviamente muito desonesto disposto a eleger alguém à sua imagem e semelhança. Mas o Congresso é uma vitrine, estampada nos jornais a cada dia, que tem o poder de formar e consolidar opiniões, fazendo resvalar para a sociedade a influência nefasta e perigosamente generalizante que a irresponsabilidade de alguns de seus integrantes teima em encarar com indiferença. A persistir esse quadro de degradação, não teremos mais um circo, ou um bordel, mas a imagem consolidada de um ambiente onde todos serão encarados como cidadãos “abaixo de qualquer suspeita”, para gáudio dos que torcem pelo fracasso da democracia e desejam o retorno dos tempos obscuros para alimentar suas sanhas inconfessadas em proveito do que há de mais repulsivo para a vida de uma Nação cujo potencial é mais grandioso e digno do que os políticos que se propõem a traçar seu destino.

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