A suíte é minha, lambisgóia (Apresentação)

A suíte é minha, lambisgoia é a fascinante e comovente história real de um homem que, aos 54 anos, vítima de um mal congênito raro que já foi tema de filme de sucesso, a osteogênesis imperfecta, é surpreendido pela súbita decisão da mulher de separar-se dele. Seria apenas uma história igual a milhões de histórias de crise conjugal que acontecem no mundo inteiro, não fossem os ingredientes que a diferenciam totalmente das demais, daí a ironia de que o romance é baseado “em fatos inacreditáveis”. Em razão desse mal congênito, o personagem (que desenvolve a narrativa na primeira pessoa, mas não atribui a si um nome, nem aos demais personagens), passa a encarar temores bem fundamentados: sua doença lhe dificulta a locomoção, em razão de deformidades ósseas acentuadas e da completa ruptura dos ligamentos do joelho, obrigando-o a utilizar-se de aparelho ortopédico para caminhar e a manter cautelas redobradas diante das possibilidades de acidentes graves no dia-a-dia. Em meio a todos esses dramas, surge mais uma indagação, entre inúmeras outras: será possível sobreviver sozinho, em casa?

Mas não é só: o personagem é também hipertenso, sofre de problemas cardíacos, sobreviveu a uma profunda crise de depressão e é vítima de outros males que ele descreve utilizando-se de uma linguagem ao mesmo tempo amarga e lírica, com toques inusitados de humor. Há também relatos em linguagem cáustica, quase corrosiva, além de ironias que dão margem a enfoques muitas vezes surpreendentes. Em meio aos dissabores que é obrigado a enfrentar, com o drama da separação, ele vivencia experiências que o enfraquecem e o fortalecem ao mesmo tempo, como uma fratura espontânea na perna, sem que ele tivesse sofrido nenhum acidente que pudesse justificar tal ocorrência. Revoltado com a incompetência dos médicos em diagnosticar o que provocou aquela intensa dor em sua perna (o que o obriga a caminhar com a tíbia fraturada por vários dias), o personagem narra seu drama provocado pela fragilidade óssea que ele enfrenta desde a infância e que se agrava na fase da separação, impulsionada pelo estado emocional que precisou enfrentar com coragem e determinação.

Dramática, irônica e mordaz a um só tempo, a narrativa do Autor é permeada por descobertas, por dramas, incidentes e circunstâncias que o levam a extremos emocionais, da profunda tristeza à intensa euforia, razão pela qual, além do lirismo, há episódios com forte dose de comicidade. Acontecimentos de uma época em que não conseguiu ser criança, experiências sexuais inusitadas, paixões, reflexões sobre o casamento, a Justiça, o comportamento das pessoas que o rodeiam, muitas vezes narrados numa linguagem que varia da sutileza à mais autêntica revolta e mordacidade quase cruel (em relação, às vezes, a si próprio), o autor-personagem redescobre a alegria de viver e o valor da liberdade plena, o que transforma os 55 capítulos de seu livro (número que coincide com a idade que ele está completando ao se divorciar) numa verdadeira lição de vida.  

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