A nação deteriorada

Jornal Terceiro Tempo, Edição 197, de 16 a 31 de agosto de 2000, página 6

No dia seguinte ao depoimento de Eduardo Jorge no Senado Federal, os jornais de todo o País destacaram o “alívio” do Palácio do Planalto diante da suposta boa performance do ex-auxiliar do presidente da República, que teria respondido “a todas as perguntas” sem hesitação e, portanto, aparentemente, se “livrado” das pesadas acusações contra ele. Outro destaque constante têm sido as notícias sobre a mobilização das bases governistas para impedir, a qualquer custo, a instalação de uma CPI para apurar o escândalo do TRT.

Certamente poucos brasileiros assistiram ao depoimento de EJ. A maioria, que trabalha e portanto não pode dedicar-se a esse “diletantismo” de ficar diante da TV por sete horas seguidas, deixou de assistir por falta de tempo, e outros tantos por falta de estômago. Boa parte dos brasileiros deixou de assistir também, entre outros motivos, porque já está cansada de ver tanta sujeira no Brasil dar em nada. Entre num táxi e ouça quem ouve todo mundo. O motorista do táxi vai dizer, invariavelmente, que o povo “não acredita em mais nada”. Estamos vivendo um momento de deterioração da vida brasileira.

Certamente quem assistiu ao longo depoimento teve várias reações, mas há de estranhar que se dê crédito absoluto à palavra apenas de um depoente. O ladrão de galinha fajuto jamais será inocentado com base apenas no que ele próprio disse. Ele poderá argumentar em sua defesa: “Não roubei a galinha, pois estava na casa de minha sogra, e lá nem galinheiro tem”. Certamente a polícia vai querer ouvir mais alguém. Parece cômico se não fosse sério. Já “gente fina” é absolvida de antemão: o “clima” está preparado no grande teatro. Sem acareação, sem audiência a outras testemunhas, sem mais nem menos. É lógico que é proibido prejulgar, condenar de antemão. Mas absolver de antemão é coisa dessas “democracias” cuja força está nos cifrões e na proximidade com o poder. O esforço resume-se a criar “o clima”. Parece que engana, mas não engana. Apenas ajuda a escancarar a verdade, com efeitos obviamente nefastos, amplos, enraizantes, devastadores.

Governo honesto não é apenas aquele que não rouba. É sobretudo aquele que abre as portas à investigação. A menos que não tenha telhado de vidro. Para o povo, hoje, o que há concretamente é um balanço altamente negativo de toda essa história: um ex-assessor coberto de suspeitas, um juiz que roubou e fugiu com o nosso dinheiro, um ex-senador cassado que pode viajar ao exterior. E envolvendo isto tudo, uma devastadora visão generalizante: “todo mundo ‘lá de cima’ é corrupto” O pior dessa história é a deterioração moral, que tende a generalizar-se. Não há influência que não se dê de cima para baixo. Temos hoje os espertinhos na sociedade sob a influência nefasta de um Governo que, ora não investiga porque pode pôr em risco a “governabilidade”, ora porque a economia pode ser afetada. E vamos seguindo o nosso caminho obscuro: uma pátria enxovalhada, que assiste não apenas à corrupção destruidora a fincar raízes cada vez mais profundas, mas sobretudo a mecanismos alimentados a cada dia para reforçar o lamaçal e proteger os de sempre.

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