O “cercadinho” de Ibsen – EXPLICAÇÃO

O que foi o episódio do “Cercadinho”

 

Tudo ocorreu, “coincidentemente”, após o escândalo dos “pianistas”, amplamente divulgado pelos meios de comunicação: parlamentes votando no plenário pelos colegas ausentes. A manobra era feita da seguinte forma: por ocasião da votação de matérias de grande interesse, o parlamentar acionava o botão do voto em sua própria mesa e ao mesmo tempo “esticava” o braço para votar na mesa ao lado, assumindo o lugar (e o voto) de um colega que não estava presente à sessão. Isso foi mostrado amplamente com imagem pelas emissoras de TV em perfeito “flagrante” do crime. Pouco tempo depois, o então presidente da Câmara, Ibsen Pinheiro, “anunciou” que faria restrições à circulação de jornalistas no plenário da Casa, limitando as áreas às quais os profissionais poderiam ter acesso. O mais grave: em retaliação, Ibsen quis impedir também o acesso dos jornalistas ao famoso “cafezinho” do plenário, exatamente o local mais propício à obtenção das chamadas informações “de bastidores”, ou seja, aquelas obtidas em conversas informais com as fontes.

Como presidente do Comitê de Imprensa da Câmara dos Deputados, reagi imediatamente, denunciando a manobra. Vários jornais publicaram minha denúncia e a então TV Manchete colocou no ar, em seu noticiário noturno, uma entrevista minha, concedida ao repórter Weiller Diniz, na qual eu denunciava que Ibsen Pinheiro ia “entrar para a história” como o presidente da Câmara que limitou o trabalho da Imprensa “coincidentemente” após as denúncias de “pianismo”. Logo na manhã seguinte, até os seguranças da Casa e o pessoal que presta serviços auxiliares vieram me cumprimentar, dizendo que haviam me visto “na televisão”. E ainda pela manhã Ibsen me convidou a ir ao seu gabinete na Presidência da Câmara. Sentamo-nos à mesa e ele me perguntou, após as “enrolações” de praxe, o que “nós queríamos”. Respondi-lhe imediatamente que exigíamos aquilo a que tínhamos direito: liberdade para trabalhar. A conversa foi em tom amigável (diga-se de passagem: Ibsen Pinheiro sempre me tratou com muita cortesia e educação. A esse respeito não tenho nenhuma queixa). Naquele mesmo dia o presidente da Câmara comprometeu-se a “flexibilizar” a medida: liberou o acesso ao “cafezinho” e manteve apenas um “corrimão” separando as cadeiras do plenário do corredor pelo qual passavam os jornalistas que saíam do Comitê de Imprensa para se dirigirem ao já citado “cafezinho”. Antes das denúncias, Ibsen pretendia que esse “corrimão” fosse usado para também impedir o acesso ao local, interrompendo a caminhada dos jornalistas até o ambiente onde os deputados saboreavam seu cafezinho e onde aproveitávamos a oportunidade para as conversas em busca de informações preciosas. Para “não dar o braço a torcer” totalmente, como se diz em linguagem popular, Ibsen manteve apenas o famoso corrimão e procurou limitar a ampla liberdade que tínhamos de acesso aos locais privativos dos parlamentares em plenário. Mas não tinha importância: quando precisávamos falar com algum deputado, bastava acenar para que ele viesse ao nosso encontro e conversávamos ali mesmo, em pé, separados apenas pela barreira que foi apelidada de “baia”, em alusão à origem gaúcha do presidente Ibsen Pinheiro. Estava vencida a batalha. Pelos jornalistas e pela liberdade de Imprensa.    

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