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Jornal Terceiro Tempo – RJ – edição nacional
Publicação: final dos anos 1990/ano 2000
Há muito tempo Papai Noel não se irritava tanto, embora estivesse acostumado a rodar por diversos países, ao longo de todos esses séculos. Sua maior desgraça foi não querer ir contra a corrente, o que o fez absorver os boatos que se multiplicavam. Tendo ouvido a conversa de que Deus é brasileiro, resolveu naturalizar-se, de onde começaram a surgir as complicações.
As ultrapassadas renas tiveram que ser de novo adotadas como propulsoras do trenó. Chegou a substitui-las por veículo automotor por algum tempo, movido a combustível, mas não suportou os aumentos constantes da gasolina e teve que trazer de volta os animais, conformando-se assim com um recurso já há muito obsoleto.
Quis também antecipar as compras de natal, mas surpreendeu-se com a elevação insuportável dos preços. Pior do que tudo: acostumado à fantasia do Plano Real, percebeu o quanto era difícil atender os pedidos das crianças que queriam ganhar brinquedos importados, tal a escalada do dólar. Na hora de quitar as compras, outro transtorno: os juros elevadíssimos inviabilizavam qualquer plano para os futuros natais, isto sem contar os impostos insuportáveis, praticamente insolúveis diante da indisposição do governo em discutir e aprovar uma reforma tributária digna do nome e da incontestável necessidade de distribuir renda.
Papai Noel não suportava mais. Deu-lhe dor nas costas, mas ele não aguentou o sacrifício das filas nos hospitais e quedou-se mais doente ainda. Teve que recorrer aos genéricos, embora temeroso quanto à falta de controle de qualidade. O ministro deu entrevista sobre o tema e ele tentou se convencer, sempre desconfiado, por saber do que são capazes as aves com bico prolongado. Numa noite em que voltava da farmácia, foi assaltado três vezes. Cansado e sem dinheiro para a gasolina, recorreu aos transportes urbanos e percebeu de perto o sacrifício dos que precisam andar de ônibus.
Todas essas dificuldades fizeram com que Papai Noel passasse a pensar até em arranjar outro emprego: algo não tão cansativo, que lhe exigisse menos esforço e lhe propiciasse uma rotina de menor risco. Desistiu da idéia após ler os jornais. Homem já de certa idade, cabelos e barbas brancas, ficou em pânico diante dos índices de desemprego. Pensou também em pedir aumento de salário, mas o processo de desmonte dos sindicatos e as últimas sentenças dos tribunais do trabalho o convenceram de que seria uma empreitada com irrisórias chances de êxito. Nem por isto desistiu, é lógico, mas está encontrando dificuldades em receber até o décimo-terceiro, mesmo sendo dezembro o mês em que mais trabalha.
Amuado, cabisbaixo, Noel pensou que não poderia permanecer em tal estado de espírito bem às vésperas do natal. Procurou descansar, esfriou a cabeça, tomou um suco de uva (pois como bom velhinho não poderia ingerir bebida alcoólica) e sentou-se um pouco para assistir TV. Foi o bastante para concluir que precisaria de uma dose de ânimo cavalar para conseguir transformar o natal em algo alegre e festivo. O locutor acabara de anunciar a aprovação do fator previdenciário. O velhinho chorou: com as novas regras, embora já velho, adoentado, cansado, padecendo de artrite e das demais enfermidades próprias da idade avançada, percebeu que jamais poderá se aposentar um dia. Sua conclusão foi óbvia: de nada adiantará dizer que não aguenta mais trabalhar ainda por tanto tempo. Afinal, ninguém acredita mesmo em Papai Noel…
SEM VOCAÇÃO
O líder do PFL, deputado Inocêncio Oliveira (PE), está convencido de que a convocação extraordinária não irá servir para nada além de contar prazo para a tramitação de emendas e projetos de interesse do Governo. Haveria mais ou menos um consenso quanto à impossibilidade de votar a taxação de inativos e a emenda das MPs. Mais uma vez, estamos diante de uma convocação sem vocação nenhuma.
DEMOCRATURA – I
A decisão do Senado em não obedecer determinação do STF é totalmente absurda, descabida e injustificável. Mais do que isto, inicia rota perigosíssima de desmoralização das instituições. Se o Congresso não acata as decisões do Supremo, sob o pretexto ridículo de que estaria havendo uma “interferência” entre poderes, o Supremo evidentemente poderá desobedecer as leis aprovadas pelo Congresso e passar a fazer suas próprias leis.
DEMOCRATURA – II
Deputados e senadores têm o direito de discordar das leis existentes no País. E têm também o poder de mudá-las. Para isto exercem o mandato legislativo. Se não concordam com as leis em vigor (que o Supremo tem que acatar), então que mudem essas leis, ao invés de desacatá-las.
MESMO FILME
Um fanfarrão da política, chamado Collor de Mello, também apelou para o recurso de desobedecer as decisões do Supremo em sua trajetória apoiada na “caça aos marajás”. Travestido de moralista, ele se colocava acima do bem, do mal e das leis, na sua suposta campanha “moralista”. Todos sabem agora como acabam os falsos moralistas…
ESTATÍSTICAS
Basta ler o obituário publicado diariamente nos jornais para concluir que há algo de estranho na “idade média” de vida do brasileiro, divulgada pelo IBGE. Já é conhecida a desconfiança em torno dos índices de desemprego divulgados por aquele instituto, que divergem frontalmente daqueles avaliados por outras instituições. Por questão de “método”, o desemprego medido pelo IBGE acaba sendo “menor” do que o resultado obtido por outros pesquisadores. Na questão da expectativa de vida, parece ocorrer o contrário: aumenta-se a “sobrevida”, para que o Governo passe a “lucrar” fazendo de conta que o brasileiro está vivendo mais do que realmente está, e assim pague aposentadorias menores. Como estatística no Brasil é algo que jamais foi levado a sério, está na hora de uma investigação cuidadosa, porque pode estar ocorrendo um novo tipo de “corrupção”: a corrupção dos números.
PRA BOI DORMIR
A ladainha do parlamentarismo volta às manchetes. Mario Covas lembra que em plebiscito recente o povo rejeitou a forma de Governo, e acha inoportuno falar no assunto agora. A rejeição no plebiscito tem a ver com a sabedoria popular: não que o parlamentarismo seja ruim. Adotado dentro dos seus princípios rígidos, sem as safadezas brasileiras que cinicamente ganharam o apelido de “jeitinho”, o parlamentarismo costuma dar certo nos países sérios e elimina uma série de vícios do presidencialismo. O problema é que, em país que não se leva a sério, transforma-se num aleijão típico dos sistemas que produzem casuísmos em benefício do “Rei”.
VIRADA
O verdadeiro “bug” do milênio é o Governo FHC: vai até 2001.