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Jornal
Terceiro Tempo – RJ – edição nacional
Publicação:
final dos anos 1990/ano 2000
Ao que parece, as mulheres não perceberam ainda o objetivo de certas declarações provocativas quanto a possíveis “privilégios” para o sexo feminino com a aposentadoria tida como “precoce”. Estamos diante de um dilema que, surgido por volta dos anos 60, persiste até hoje: mulher e homem devem “enfrentar-se”, em busca de seus respectivos direitos, ou devem se unir para buscar condições dignas de sobrevivência para ambos?
Esse questionamento surgiu em alguns segmentos do movimento feminista, pouco depois que as mais aguerridas passaram a rasgar soutiens em praça pública, durante as passeatas em que algumas das mais exaltadas queriam mesmo era se “vingar” dos homens. A frase de provocação do Príncipe surtiu o efeito desejado: as mulheres unem-se agora para argumentar que lavam louça, preparam a comida, passam roupa – argumentos que fazem parte de um universo reduzido diante de outro que é inquestionavelmente muito mais amplo: estão destruindo a Previdência Social, tanto para homens como para mulheres, e a gravidade desse fato está sem dúvida muito acima de qualquer discussão quanto aos afazeres domésticos. Até porque, se a situação para a mulher é degradante em muitos aspectos, a estrutura caótica da sociedade brasileira nem sempre deixa os homens livres de constrangimentos, para dizer o mínimo, em muitas circunstâncias.
Há alguns anos a contribuição para a Previdência era sobre 20 salários mínimos. O Governo reduziu esse teto para 10 salários mínimos e não devolveu um centavo sequer aos que fizeram o recolhimento sobre esses 20 salários, e acabaram depois se aposentando com direito a apenas 10. Isto não tem outro nome: é calote. Ou melhor: roubo. Hoje, nem dez salários são garantidos. De forma cínica, como se a inflação e as necessidades básicas existissem apenas para quem está na ativa, o Governo fixa o teto em reais, e não em número de salários mínimos. A maior aposentadoria a ser requerida hoje, após a promulgação da “reforma”, para trabalhadores da iniciativa privada (soa estranho falar em “maior”), continua nos míseros R$ 1.200,00, que daqui a pouco valerão R$ 900, que daqui a pouco valerão R$ 700, que daqui a pouco valerão R$ 500, e assim por diante, pois a correção em valores justos jamais ocorrerá, evidentemente.
Leio o desabafo de integrantes da ala feminina do Congresso, de que “o presidente parece não estar nem aí com a realidade das mulheres”. Na verdade, os rumos do Governo parecem deixar evidente que ele não está nem aí para as mulheres, para os homens, para as crianças, para os brasileiros de um modo geral e, principalmente, para o trabalhador. Como que entorpecida pela doentia falta de capacidade de questionamento, a grande Imprensa (grande em que?) passa a aplaudir de forma incondicional as atitudes do Governo para “combater o déficit público”, sem levar em conta se há legitimidade nessas atitudes. Para “equilibrar as contas” entra-se no clima do “vale tudo”, absorve-se o amoral entendimento de que “os fins justificam os meios”, que serviu de base para tantos crimes e injustiças contra a humanidade.
Um desses crimes é querer colocar-se o aposentado e o pensionista para pagar o alto preço do desequilíbrio das finanças públicas, que eles não provocaram. Se as contas públicas, de um modo geral, e a Previdência, em particular, estão desequilibradas, só há um responsável: o próprio Governo. E o grupo encastelado no poder é o mesmo no Brasil há décadas, não valendo portanto o argumento igualmente cínico de que esse desequilíbrio é uma “herança”, até porque não é, em muitos aspectos. Os desacertos da política econômica não são herança. Podem ser “herança” o esfacelamento do caixa da Previdência, que já serviu para financiar Brasília, hidrelétricas e obras faraônicas. Em nenhum dos casos o aposentado e o pensionista têm a ver com alguma coisa. E muito menos o trabalhador na ativa, que assiste estarrecido ao esfacelamento completo da possibilidade de ter uma velhice tranquila, diante do desmonte que estão promovendo do seu futuro.
Lavar louça, fazer comida e passar roupa podem ser um reflexo da desvantagem da situação feminina na sociedade, assim como podem fazer parte da atividade de homens solteiros e viúvos que não dispõem de recursos para contratar serviços domésticos, e dos que eventualmente contribuem no lar com essa atividade. É lógico que, no caso das mulheres, a situação é mais “genérica”, enquanto no caso dos homens pode ser “eventual”. Mas qualquer discussão com base nesses argumentos tende apenas a esconder, com o divisionismo, um aspecto muito mais grave, que é exatamente o de querer atribuir a falência da Previdência aos que têm legítimo direito sobre ela (os trabalhadores), e não aos que já a administraram um dia e ainda a administram de forma incompetente e até – em alguns casos – irresponsável. É preciso, portanto, que homens e mulheres se unam, em defesa de seus legítimos direitos, pois são eles que estão sendo cassados pelo Governo.
LULA FHC DA SILVA
Há pouca gente no PT, como o deputado Paulo Delgado (MG), que defende o “diálogo” com o Governo, e muita gente, como José Genoíno (SP), que vê no Legislativo o forum legítimo para possíveis negociações. Lula foi conversar com FHC e viu-se o resultado: os oportunistas do PFL começam a ironizar em cima da suposta possibilidade de “acordos” entre PT e Governo. De tudo isto, a conclusão é uma só: não há por parte do Governo disposição nenhuma ao diálogo, mas sim a tentativa de descaracterizar a oposição diante dos embates políticos que ocorrerão daqui por diante. É uma tentativa de confundir o eleitor ainda mais para o próximo pleito, diante das dificuldades do atual grupo em manter-se no poder, depois de tanta incompetência e sobretudo diante dos resultados de uma política econômica tão avassaladoramente destruidora como a adotada pelo atual Governo. Estão querendo que o eleitor chegue à conclusão de que “é tudo a mesma coisa”.
BIBLIOTECA
Quem não conhece ainda as dimensões dos vícios que tomaram conta da chamada Grande Imprensa (grande em quê?), no chamado mundo capitalista, deve ler “Os novos cães de guarda”, de Serge Halimi. O estudo tem como ponto de partida o fenômeno do adesismo ao poder que toma conta da Imprensa francesa, mas é lógico que o Brasil está incluído – implicitamente – em cada linha das 150 páginas do livro. Leia e acredite: é como o autor diz.