Revista Tendência – RJ
(matéria nº 1 para edição/ 05.04.95)
Na área de investimentos diretos por parte do capital externo, o Brasil está situado atrás do México e da China. Um dos motivos: junto com Panamá e Filipinas, o Brasil integra o reduzidíssimo grupo de países em todo o mundo que discrimina o investimento estrangeiro em sua própria Constituição.
Com esta observação, o consultor e analista Murillo de Aragão, pesquisador associado da Social Science Research Council, em Nova York, e autor do livro Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Editora Maltese), sintetiza as razões pelas quais os investidores estrangeiros continuam cautelosos em relação ao maior país e à maior economia da América do Sul, uma cautela que se aguça em período de reforma da Constituição.
Aragão – diretor da Arko Advice, empresa especializada em análise política de Brasília, e membro do Comitê executivo da FIPP (International Federation of the Periodical Press, Londres) – acredita que esse quadro vai mudar, pois o Poder Executivo no Brasil – adverte – “precisa restabelecer sua capacidade de fazer política pública”, algo que não faz há muitos anos, com o país mergulhado em crise econômica, financeira e de gestão. O Governo brasileiro – alerta Murillo Aragão – precisa voltar a empregar “tempo, cabeça e energia” em investimentos sociais, deixando para a iniciativa privada os investimentos nos demais setores da economia.
Para ilustrar as disparidades, o analista observa que na China foram investidos no ano passado 94 bilhões de dólares de capital externo e, no México, 8 bilhões de dólares, enquanto em relação ao Brasil essa cifra não ultrapassa os 2 bilhões de dólares. Pelo andar da carruagem – a menos que ela se acelere – o Brasil não será atrativo para o investidor estrangeiro nem mesmo após a crise da Argentina.
A razão disso é o Mercosul. Aragão observa que na verdade o Brasil sempre representou, potencialmente, um mercado mais atraente do que o argentino, por ser muito maior, mas como a Argentina não discrimina o capital externo e tem “regras mais estáveis” na economia, pode acabar se tornando mais interessante se essa discriminação e essa instabilidade persistirem no Brasil. O Mercosul fortaleceria neste caso a posição da Argentina – observa – na medida em que a produção poderia ser escoada com maior facilidade para os demais países integrados ao sistema. “As indústrias se instalariam lá, e poderiam exportar facilmente para os demais países”, explica, já que o sistema seria de “mercados integrados”.
Murillo de Aragão enumera três fatores principais que provocam “medo” no investidor, quando a questão é o mercado brasileiro: as incertezas quanto à estabilidade econômica, a constante mudança de regras e os obstáculos impostos pela Constituição, “um verdadeiro cartão de visitas negativo para o investidor”. Isto – prossegue – numa época em que a competição por investimentos está cada vez mais acirrada no mundo, após a constatação de que o modelo de poupança interna leva ao fracasso pela emissão de moeda sem lastro. Até economias fechadas, como Albânia, Paquistão e Índia, já perceberam isto e passaram a dar liberdade para o capital externo – frisa.
Aragão enfatiza que as relações internacionais ganharam nova dimensão e que hoje “capital não tem nacionalidade”, especialmente sabendo-se que a grande carência atual é no que diz respeito à geração de empregos. Mas nenhum grande investimento – observa – é feito sem muita antecedência. “Ninguém vai investir 200, 300 ou 400 milhões de dólares num País de uma hora para outra”, daí a conclusão óbvia de que os investidores estrangeiros vão continuar à espera das mudanças na Constituição para tomar decisões em relação ao Brasil, segundo Aragão.
AMERICANOS ESPERAM
Essa visão é compartilhada por Walder de Góes, do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos – IBEP – também de Brasília. Ele garante que tem conversado com muitos investidores, especialmente dos Estados Unidos, que ainda aguardam os desdobramentos da nova fase vivida pelo país, com um novo Governo e uma Constituição sendo revista.
Apesar do otimismo que o Governo brasileiro tenta passar, Walder de Góes observa que não existe ainda confiança nem mesmo em relação à moeda. Já no que diz respeito ao empresariado brasileiro e suas perspectivas de investimentos, o analista político observa que trata-se de um empresariado “muito fragmentado”. Quem detém monopólio do mercado interno não quer a abertura da economia, que por sua vez é aceita por quem não faz parte de um setor monopolizado, avalia. A espera pelas mudanças que poderão surgir na Constituição passa a ser, portanto, melhor “conselheira” na hora de investir pesado.