Influência do Plano FHC nas eleições de 1994

Revista TENDÊNCIA – RJ – 1993 (Título da matéria não localizado)

Assunto: Influência do Plano FHC nas eleições de 1994

 

 

 

O PSDB está jogando não apenas a sorte da candidatura Fernando Henrique Cardoso, mas também o próprio futuro do partido, no Plano Econômico do Real. Se ele der certo a candidatura tem grande chance de êxito e todo o PSDB será beneficiado. Se ele fracassar, acarretará o naufrágio da candidatura e um grande ônus político para o partido.

A opinião é manifestada pelo “tucano” Maurílio Ferreira Lima (ex-PMDB), que diz não acreditar na existência de uma “zona cinzenta” no Plano, ou seja, não há meio termo: ou ele “terá um sucesso absoluto, ou um retumbante fracasso”. E o parâmetro para medir o sucesso – diz o deputado pernambucano – é muito simples: o termômetro será a estabilização dos preços. “Poderá se dizer que o Plano deu certo – resume – quando o preço do feijão no último dia do mês se mantiver igual ao do primeiro dia do mesmo mês”.

Maurílio enfatiza que um estudo cuidadoso tem que ser feito quanto ao dia de implantação do Real – a nova moeda -, observando que haverá um período de “adaptação”, já que parte da população ficará “desconfiada” quanto aos reflexos da mudança, enquanto os adversários políticos apontarão a existência de “fraude” ou até mesmo “estelionato” eleitoral. Essa “fase de desconfiança” – diz ele – tem que ser superada para que o plano comece a render dividendos políticos.

As opiniões são as mais diversas com relação aos reflexos do Plano FHC nas eleições, mas é certo que ele fará parte da pauta de discussões, observa o deputado Victor Faccioni (PPR-RS). “O próprio Fernando Henrique vai ser o primeiro a querer comentá-lo, se o Plano estiver indo bem, e o mesmo acontecerá com os adversários, se o Plano estiver indo mal”.

Mas os dividendos – acredita Luis Roberto Ponte (PMDB-RS) não serão absolutos, nem a influência será decisiva para o resultado do pleito. “Até lá – deduz – haverá uma “diluição” dos possíveis méritos”, já que estarão em cena também o novo ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, toda a equipe econômica e o próprio presidente Itamar Franco. “O sucesso ou fracasso – prossegue – será portanto atribuído a mais de uma pessoa”.

Faccioni e Ponte identificam dois reflexos diretos das medidas econômicas sobre o comportamento do Congresso. “Do ponto de vista político – diz Ponte – uma fração do Congresso fica contra o Plano, embora isto não seja suficiente para inviabilizá-lo”. Já Victor Faccioni aponta outro complicador: a adoção da URV (Unidade Real de Valor) criou um descompasso na dívida agrícola. Isto porque – explica -, enquanto o Governo adota a TR para a correção das dívidas dos agricultores, a URV  é usada para a fixação dos preços mínimos dos produtos agrícolas. Como a TR equivale na verdade a correção monetária mais juros, a dívida acaba sendo maior do que a compensação proporcionada pela garantia do preço mínimo. No entendimento de Faccioni, isto pode criar dificuldades para Fernando Henrique junto à bancada rural do Congresso, além de representar eventualmente também menos votos no campo para o candidato.

As dúvidas quanto ao sucesso ou insucesso das medidas econômicas são praticamente nulas para o deputado Maurício Campos (PL-MG). “Acredito que vai dar certo – comenta – , porque do ponto de vista conjuntural os ingredientes são favoráveis”.  E enumera: “As reservas cambiais aumentaram consideravelmente, a dívida externa está equacionada do ponto de vista da negociação, e a dívida interna é hoje praticamente a metade da que existia no Plano Cruzado”.

Opinião diametralmente oposta é manifestada pelo deputado Miro Teixeira (PDT-RJ), para quem “o Plano não produziu emoção”. Em primeiro lugar – diz ele – não há um plano, mas tão somente um novo fator de indexação (com o que concorda o deputado-economista Roberto Campos, do PPR do Rio de Janeiro). Além do mais – prossegue Miro – a população passa a perceber, ao contrário do que supunha o Governo, que está sendo submetida a um duplo confisco: a inflação em dólar, que surge a partir da URV, e a ausência de reposição das perdas salariais. Isto leva Miro a concluir que, se houver reflexos do plano nas eleições, “será negativo”. Até porque – insiste – o próprio Governo prevê inflação em torno de 3 por cento em agosto. “Só que inflação de 3 por cento ao mês em dólar – ironiza – é uma completa aberração internacional”.

Luis Roberto Ponte contesta esta avaliação. Ele observa que a implantação do Plano Cavallo na Argentina, considerada um sucesso, conviveu inicialmente com um substancial resíduo inflacionário em dólar, na mesma faixa prevista pelo Governo brasileiro. Tudo depende – completa – da habilidade da equipe econômica em implantar a nova moeda no momento certo – quando a inflação estiver baixando – e da determinação do Governo em não gastar mais do que pode.

PETISTAS JÁ SE

PREPARAM PARA

O DEBATE

 

O deputado Humberto Souto (PFL-MG) analisa que o acordo entre o PSDB de Fernando Henrique e o PFL “garante a presença” do candidato “tucano” no segundo turno das eleições presidenciais, para desespero – segundo o parlamentar mineiro – dos petistas, que teriam até então uma candidatura praticamente imbatível.

Os petistas, ao contrário do que diz Humberto Souto, aparentam não padecer ainda de desespero. O deputado José Genoíno (PT-SP) reconhece a influência do Plano nas eleições, mas considera que a questão é administrável. “Se a inflação de fato começar a ser derrubada, a idéia tem que ser a de partir para uma discussão inteligente do Plano, mostrando suas insuficiências e seus efeitos maléficos”. A receita de Genoíno é a de manter um “debate racional e inteligente”. O que não se pode – diz ele – é partir para a apelação, “chutar o pau da barraca”. E garante: “Se mantivermos o debate de forma inteligente, nós não perderemos as eleições”.

Pragmático, o petista Paulo Delgado (MG) acredita tanto nas potencialidades do Plano FHC que foi um dos mais fortes defensores de um acordo  entre o seu partido e o PSDB. “Quem conseguir estabilizar a economia deste país governa no mínimo por 20 anos”, sustentou repetidamente Paulo Delgado ao defender o acordo não concretizado.

Dele diverge o também petista Eduardo Jorge (SP), convencido de que a população “já está vacinada” em relação a esses planos, o que acarreta uma diminuição ou mesmo anulação – a seu ver – dos reflexos eleitorais dessas medidas. Para Eduardo Jorge, haverá sempre uma dúvida por parte do eleitor em relação aos reflexos das medidas adotadas, dúvida que persistirá ao longo de todo o processo eleitoral. Além do mais – argumenta – trata-se apenas de um plano de estabilização, enquanto o plano de desenvolvimento do país deverá ficar para o próximo Governo. “Eu até espero  que as medidas econômicas tenham êxito – diz Eduardo Jorge -, mesmo porque isto seria uma ajuda para o próximo Governo”.

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