Revista TENDÊNCIA – RJ – Data de publicação não localizada nos arquivos.
Assunto: Entrevista com Orestes Quércia sobre o Plano Real
O Plano Real visa apenas às eleições e se resume a medidas monetaristas de curto prazo. O Brasil precisa de um plano mais consistente, que contemple as questões do emprego, da distribuição de renda, do subemprego e da economia informal.
As críticas são do candidato do PMDB à presidência da República, ex-governador Orestes Quércia, que promete um “choque de desenvolvimento” no País caso seja eleito. Com metas ambiciosas, Quércia diz que vai dotar o País de uma eficiente infra-estrutura que inclui a implantação de hidrovias e a abertura de uma ligação do Norte do País com o Oceano Pacífico, de modo a criar um canal direto para o comércio exterior com a Ásia e a Costa Oeste dos Estados Unidos. Quércia diz que a visão do atual governo com relação aos problemas econômicos “é muito simplista”, pois a meta deve ser a de estender os benefícios da economia aos milhões de excluídos socialmente.
A seguir, a íntegra da entrevista do candidato do PMDB à revista TENDÊNCIA:
Pergunta: Caso seja eleito presidente da República, o sr. pretende dar continuidade ao plano econômico do Real, ou pretende esquecê-lo e implementar novos ajustes na economia? Se for dar continuidade, de que forma o fará? Quais as medidas indispensáveis à correção de possíveis falhas ou defeitos?
QUÉRCIA – É muito difícil falar de continuidade do plano econômico, porque a sua perspectiva é de curtíssimo prazo, ou seja, o plano do governo e do seu candidato esgota-se com as eleições deste ano. A própria equipe econômica do governo não projetou as perspectivas do real para o período pós eleitoral. Por outro lado, o meu programa econômico não se limitará a medidas monetaristas de curto prazo. Nós vamos dar um novo rumo à economia brasileira, voltado à produção, à geração de empregos e ao desenvolvimento com justiça social. Para isso, estimularemos a modernização industrial, a criação de pequenas e médias empresas e a formação de pólos regionais de desenvolvimento. Realizaremos, ainda, uma grande reforma agrária, com a participação dos sindicatos de trabalhadores rurais e cooperativas, e instituiremos uma política agrícola consistente, com choque de crédito à produção, comercialização, aquisição de máquinas e implementos agrícolas e armazenagem nas próprias fazendas. No setor rural, pretendo que, no último ano de meu governo, o Brasil plante uma safra de 100 milhões de toneladas de grãos. O nosso modelo econômico prevê a interiorização do desenvolvimento, visando reduzir as disparidades regionais, e o desestímulo à ciranda financeira, que se constitui em um dos principais fatores da concentração de renda no País. Quero colocar o Brasil no caminho da produção e do desenvolvimento. No âmbito dessa meta, também dotarei o País de uma eficiente infra-estrutura de transportes, recuperando e modernizando as malhas rodoviária e ferroviária e as integrando a um sistema de hidrovias. Também abrirei uma ligação do Norte do País com o Pacífico, implantando, assim, um canal direto para o comércio exterior com a Ásia e a costa oeste dos Estados Unidos. Esses objetivos econômicos transcendem as meras medidas monetaristas, que, na concepção do atual governo, parecem ser o único instrumento para solucionar os problemas econômicos. Esse raciocínio é muito simplista. O Brasil precisa de um plano mais consistente, que contemple as questões do emprego, da distribuição de renda, do subemprego e da economia informal. Sem solucionar esses problemas, estendendo-se os benefícios da economia aos milhões de excluídos deste País, não será possível chegarmos ao desenvolvimento. É por isso que o programa de governo do PMDB tem o incentivo à produção como pressuposto para o engajamento mais eqüanime dos brasileiros nos benefícios da economia.
Pergunta: No caso de fracasso do Plano, o que se pode prever na economia e que medidas salvadoras poderão ser tomadas?
QUÉRCIA – Como eu já disse, é difícil falar sobre a continuidade do plano, que se esgota com as eleições. Embora eu torça muito pela queda da inflação, que concentra cada vez mais a renda, temo que essa meta seja prejudicada pelo caráter eleitoral do plano. Também é preciso considerar até que ponto a manutenção da paridade fixa do Real com o dólar afetará as reservas cambiais brasileiras. Ao assumir o governo, avaliarei todas essas questões com a minha equipe econômica, para adotar as medidas necessárias. De qualquer maneira, o choque de desenvolvimento que o Brasil terá em meu Governo contemplará a necessidade de combater a inflação. Só que isso será feito com produção e trabalho e não com a paralisação do País e o desemprego.
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Pergunta O que é necessário aprovar na reforma constitucional para dar continuidade ao plano ou para substituí-lo por uma opção melhor para o país?
QUÉRCIA – Logo que assumir o governo, vou propor e realizar junto com o Congresso as reformas constitucionais de que o Brasil necessita. Os pontos principais são relativos ao capital estrangeiro, aos monopólios e oligopólios, à gestão da Previdência e Saúde e a questão tributária. O programa do PMDB prevê a separação total dos orçamentos da Previdência e da Saúde, por exemplo. Vou recompor o Orçamento da Saúde, que foi drasticamente reduzido pelo Governo Federal, com recursos do Finsocial e do Cofins. Na verdade, a reforma constitucional não pode ficar atrelada, como sugere a pergunta, ao plano econômico do atual governo, pois, como eu já disse, ele é de curto prazo e não inclui reformas estruturais indispensáveis ao equilíbrio de nossa economia.