Havia um homem que não morava perto do rio, se bem que achasse melhor, sobretudo quando era moço. Nem morava perto do rio, nem a região era úmida, mas como atravessasse um período chuvoso as coisas andavam sempre molhadas e o deixavam agoniado. Então, ele procurava evitar o contato com a água e deixou de tomar banho.
Não bebia nada, também, e se chovesse ele corria para dentro de casa, sem depois lavar as mãos – como fazia antes, sempre quando chegava da rua. Mesmo que fosse almoçar, agora ia com as mãos sujas para a mesa, contrariando absolutamente todos os bons hábitos que adquirira até o dia em que a água começou a invadir-lhe a casa sem que ele o desejasse.
Em pouco tempo ficou imóvel sobre a cama, porque chovia muito e não havia nada o que fazer dentro de casa.
Das paredes escorria água daquela umidade que vinha de fora, e nas roupas e nas outras coisas começava a criar mofo.
Ele então tomou coragem de ir até a cozinha, pegou a caixa de fósforos e ateou fogo às vestes. Antes, jogou querosene nele e em tudo o mais, para que o combustível vencesse a resistência das águas.
Das vestes, o fogo atingiu as toalhas, e das toalhas as janelas e as portas, e a estante que estava perto, e os livros. E queimou também o chinelo perto da cama com a cama e tudo, incluindo lençóis e travesseiros, sem contar o cobertor.
Só restaram as paredes, e lá fora o céu mais azul, anunciando que no dia seguinte ia fazer muito sol.
(23/11/79)