Trecho 1
Reuniram-se o fedelho, a fedelha e eu, que não sou fedelho. O fedelho era todo empertigado, andava de terninho todo bem cortado, falava de maneira formal, como se fosse muito educado. Tinha aquela pinta de filhinho de papai e fazia um esforço descomunal para parecer mais inteligente do que realmente era, segundo vim a constatar poucos dias depois. Tinha um jeito de computador, mas não era um Pentium nem um Athlon 64. Era um 286, ou daí pra trás. Um XT. Ou será que era um ET? Ou então um autômato. A fedelha era meio esquisitinha: a cara desproporcional ao corpo. De certo ângulo, parecia-se com uma formiga. As pernas pareciam muito longas, naquelas calças meio de proporções reduzidas, no que se refere à circunferência, se é que vocês me entendem. Pareciam um par de tubos enfiado nas pernas. Eu jamais levaria aquela mulher para a minha banheira de hidromassagem.
Primeiro: porque não simpatizava com ela;
Segundo: porque era muito metidinha pro meu gosto, e sem motivo nenhum para ser metida. A toda hora eu pensava comigo mesmo: “Arghtttt!”. O que ela podia ostentar a mais do que qualquer mulher, para ser tão metida a besta? “Arghtttt!”.
Terceiro: sabe quando a gente usa o termo “lambisgóia”? Pois é, parecia uma lambisgóia. Tinha tudo de lambisgóia: o tipo, o jeito, a cara, a maneira de falar. Era uma lambisgóia da cabeça aos pés.
Quarto: parecia que era casada ou iria se casar. Eu não conheço bem a vítima que ia se casar com ela, e certamente só o tempo dirá se ele se arrependerá ou não. Ele devia ser doido para casar com uma lambisgóia, mas é aquela coisa: gosto não se discute. Então, pode ser até que sejam felizes.
Trecho 2
Eu vejo paisagens bonitas quando vou ao campo, mas nada que se compare à paisagem do corpo de uma mulher. Aliás, para mim é incompreensível que certas partes do corpo feminino tenham sido batizadas com um nome tão feio. Alguém já prestou atenção na palavra bunda? Por mais que seja bonita a bunda da mulher, você tem que chamar de bunda. É horrível que uma parte assim tão estética receba um nome tão feio. É uma palavra que não fica bonita nem se for escrita na fonte Garamond ou AvantGarde. Como algumas pessoas têm até vergonha em pronunciar uma palavra tão feia, partem para variantes ainda mais desastrosas, como nádegas (terrível) ou “traseiro” (vulgaríssimo), ou para o eufemismo “bumbum”, que, além de soar meio piegas e cafona, lembra muito mais o som que sai de vez em quando, do que a coisa em si. Você teria coragem de dizer a uma mulher: “Suas nádegas são lindas”? Eu sou um cara corajoso, mas não teria de jeito nenhum. Se a mulher tiver uma bunda realmente muito bem desenhada, o máximo que eu faço é partir para o diminutivo: “bundinha”. Fica, pelo menos, mais gracioso, e atribui ao termo um som meio erótico, e até, dependendo da situação, quase pornográfico. Quase. De qualquer modo, é melhor ser quase pornográfico do que piegas e cafona, pelo menos levando em conta os meus conceitos pessoais. Pode ser que alguém divirja. Tem todo o direito. Só que as mulheres recalcadas não precisam se preocupar com esse tipo de coisas: normalmente, elas nem bunda têm.
Trecho 3
Ao entrar na sala de radiografia a moça de cabelos encaracolados mostrou que eu tinha que subir numa plataforma e ficar apoiado só num pé, para colocar “carga” no joelho que o médico achou que estava muito torto e que estaria provocando aquela dor na perna. Para subir àquela plataforma já foi uma dificuldade. Na perna que eu sentia dor eu sentia dor, e na perna que eu não sentia dor eu sentia fraqueza, porque na perna que eu não sentia dor eu usava um aparelho ortopédico, e a perna já andava meio fraca, meio raquítica, meio mal de músculos, porque desde que a dor surgiu na outra perna eu não tive mais ânimo para fazer meus exercícios. Então a moça bonita de cabelos encaracolados chamou a colega e ambas me ajudaram a subir na plataforma. Eu perguntei onde eu podia segurar para não cair, mas o lugar onde eu achava que podia segurar eu não podia segurar, porque não era firme. Eu tive que me equilibrar enquanto eu pude e elas tiraram a radiografia rapidinho, antes que eu despencasse da plataforma. Só tinha uma pontinha daquela aparelhagem toda onde eu podia segurar devagarinho, para não cair. Elas me ajudaram a descer da plataforma, já que não tinha ninguém me acompanhando. Quando eu desci da plataforma a moça linda de cabelos encaracolados falou: “O senhor é um herói”.
Eu só fiquei chateado porque ela me chamou de “senhor”.
Trecho 4
Depois de algum tempo saiu de cena a lambisgóia e entrou a xexelenta. Ela não é de todo má: só a metade. A outra metade é simplesmente péssima. Em resumo: é uma figura desprezível, nem vale a pena ser mencionada. Incluo-a como personagem de um livro tão nobre apenas para ilustrar o quanto as pessoas podem revelar que não possuem nenhum caráter. A xexelenta marcou uma conversa no escritório dela para combinarmos os termos de um acordo que, por sinal, já havia sido fechado em casa, numa conversa que mantive com a mulher. Já estava tudo acertado e eu fui com a certeza de que as pessoas são capazes de honrar a palavra, mas estava novamente equivocado. Vários itens do acordo começaram a ser alterados, e até meu advogado, que é excessivamente calmo, surpreendeu-se com aquela atitude, pois também julgava que a reunião seria apenas para redigir o texto a ser submetido ao juiz, para homologação (…)
(…) É lógico que a ex-mulher provavelmente não decidiu essas coisas todas, que me desagradaram, sozinha: a xexelenta é uma influência nefasta na vida de qualquer pessoa. Deve ter chulé, unha encravada, medo do espelho, flatulência e crises de amargura, de modo que acaba descarregando isso tudo nos ex-maridos das pessoas que ela imagina que está protegendo. Mas também é evidente que a ex-mulher já está crescidinha o suficiente para entender o que é certo e o que é errado, por mais que as péssimas influências a estejam rondando (…)
Trecho 5
(…)Porque a paixão é um perigo. Eu me apaixono com alguma facilidade, descobri bem cedo. Tenho que confessar. Acho que sou naturalmente apaixonado pelas pessoas, até de forma exagerada, às vezes, o que pode me fazer passar mal depois do almoço. Houve uma mulher em especial por quem eu me apaixonei de imediato, a ponto de estar citando-a pela segunda vez neste livro. Ela era um misto de índia – embora de pele clara – e de japonesa, com cabelos negros e lisos, e sem dúvida alguma é a mulher mais bonita com quem eu já dormi, e seguramente qualquer homem chegará a essa conclusão ao dormir com ela. E o que mais me impressionava nela é que não se achava bonita. “Não exagere”. Lembro-me de sua feição ao dizer isso, quando eu a chamei de linda. Eu nunca vi um olhar tão doce e tão acolhedor. Depois do amor, ela se deitava com a cabeça apoiada no travesseiro e me convidava: deita aqui. E me perguntava: tudo bem? E conversávamos, e era um assunto atrás do outro. E quando eu dormia sozinho em casa, eu não conseguia parar de pensar nela. “Isso é paixão”, eu me assustava. Ainda é cedo. Então, eu tinha que acionar meus mecanismos contra a paixão. Mas nunca deixei de procurá-la e de amá-la. Ternamente (…)
Trecho 6
(…) Até o dia em que escrevi esses relatos eu ainda não havia consultado nenhum cardiologista. Preferi prosseguir na autodosagem e constatei que minha pressão voltara aos níveis normais quando cheguei em casa após o encontro. Não sei se foi a satisfação do sexo, e não poderia explicar se havia sido o efeito daquele meio comprimido que eu tomara a iniciativa de ingerir. Eu não sabia de mais nada. Só sabia que minha pressão, segundo acusava o aparelhinho, agora voltara ao normal.
Mas não faz mal que as mulheres me causem hipertensão. E não há motivo para preocupações. Toda vez que o meu coração pulsar acima do normal, vou tomar meia dose a mais do medicamento, sempre saboreando a doce alegria de sentir que, se é inevitável morrer, então que se morra de amor (…)