O passado presente

Jornal Terceiro Tempo – RJ – edição nacional

Publicação: final dos anos 1990 ou em 2.000 (impresso não localizado)

 

Se o Governo FHC já fez alguns brasileiros chorarem, a campanha FHC pela reeleição está sendo capaz de fazê-los rir. Poucas vezes se viu tanta “cara de pau” numa campanha política, ou mesmo tanto desrespeito à inteligência do eleitor. Parece que FHC e sua tropa estão realmente convencidos de que os brasileiros não pensam, não têm absolutamente nenhum resquício de memória e muito menos vergonha na cara.

Só pode ser entendida assim a sua tentativa de fazer crer que ele está empenhado em empreender batalhas em torno das quais não demonstrou o menor empenho durante quase quatro anos. É como se ele quisesse nos forçar a imaginar que irá jogar ladeira abaixo todo o fundamento em que se apóia seu plano recessivo, ancorado em questões que empobrecem o povo e muitas vezes levam o brasileiro médio ao desespero, como o  próprio desemprego e o arrocho nos salários, em nome de uma “baixa inflação”.

Ao lado de seu novo “Serjão” – o conhecido “Malvadezão” – FHC já escolheu “motes” que serão repetidos exaustivamente, na esperança vã de que se transformem em verdades. O mais recente é no sentido de que, se a oposição ganhar, o Brasil dará “marcha-à-ré”. Faz lembrar uma lapidar frase publicada há alguns anos no antigo jornal esquerdista “Movimento”, que combatia a ditadura militar. Dizia mais ou menos assim: “Otimista é o sujeito que diz que o Brasil é um país que vai pra frente. Pessimista é o indivíduo que diz que o Brasil está à beira do abismo. E realista é o indivíduo que diz que ambos estão corretos”…

A inigualável demonstração de que FHC espirra serragem está na sua velha alegação de que o estão culpando injustamente pelas mazelas do País, quando elas são “origem do passado” e não foram criadas em seu Governo. FHC é capaz de dizer isto posando em sorrisos ao lado de ACM, Jorge Bornhausen, Marco Maciel e tantos outros que representam com a melhor fidelidade possível esse “passado” ao qual ele atribui a origem das mazelas. É de uma desfaçatez lapidar: os males vêm do passado, e ele se alia ao lado exatamente dos que sempre dominaram a política e construíram esse “passado” para “modificar” o presente. Qualquer brasileiro sabe que aliar-se a figuras que encarnam a verdadeira oligarquia que sempre pintou e bordou no Brasil é a melhor forma de andar para trás eternamente, numa manobra bem pior do que uma eventual marcha-à-ré destinada a corrigir rumos de percurso.

O Brasil com FHC, como dizia a frase do jornal “Movimento”, é um país que “vai pra frente”. Se não der logo uma providencial “marcha-à-ré” a fim de buscar outro rumo, cairá inexoravelmente no abismo.

 

 

 

BOMBAGEM

 

Enéas, o suposto candidato dos “insatisfeitos”, promete fazer a bomba atômica, caso se eleja. Conforme se verifica, o velho “festival de besteiras que assola o país”, do saudoso Stanislaw Ponte Preta, nunca sai de cartaz no Brasil.

 

 

LIÇÃO DE CASA

 

O ex-ministro da Fazenda desautoriza o ex-ministro da Fazenda. Ciro Gomes, o candidato do PPS,  que já foi ministro da Fazenda, ironizou a proposta de FHC, que já foi ministro da Fazenda. Ciro lembrou que é impossível gerar empregos de fato sem equilibrar as contas públicas e sem que o crescimento da economia atinja um nível de ao menos 6% ao ano. FHC, que nunca foi economista e um dia já foi sociólogo, não sabe até hoje que a equação “não fecha”. As promessas nada mais são, portanto, do que marketing eleitoreiro. Depois de outubro, volta tudo ao “normal”.

 

 

REVANCHE

 

Frase que pode ser dita pelo técnico da Noruega a Zagalo: “Você agora vai ter que me engolir”. No futebol, como na política, nada como um dia após o outro.

 

AINDA O PASSADO

 

Talentos do maior valor da música brasileira, como Noel Rosa, morreram de uma doença que sempre vitimava os boêmios: a tuberculose. O Poeta da Vila morreu em 1937, mas ainda hoje no Brasil, segundo os levantamentos, morrem seis mil pessoas por ano de tuberculose. A grande diferença é que àquela época a Medicina ainda não dominava o bacilo de Koch, causador da doença. Hoje, quem mata não é o bacilo somente, que pode ser dominado, mas sim a miséria e a falta de assistência médica aos que adoecem. Mais um caso de “passado” que pode ser corrigido, mas não foi.

 

RECEITA MÉDICA

 

Não ouçam nem leiam as declarações de ACM antes ou depois das refeições. Antes, causam anorexia. Depois, provocam indigestão.

 

 

FALHA DE DIAGNÓSTICO

 

O senador Pedro Simon – que antes do PMDB já era MDB – andou desabafando em Brasília a respeito da crise que toma conta do partido, com a guerra entre governistas e partidários da candidatura própria. Simon disse que não está “entendendo nada” do que está ocorrendo e que, por isto, já se sente até mesmo um “analfabeto” político, em matéria de partidos.

Ou Simon exagera, ou teve lapsos de memória. A trajetória do PMDB sempre foi marcada por divisões internas. O próprio Ulysses Guimarães viveu o mesmo episódio na pele, quando teve que amargar uma humilhante derrota após ver seus colegas de sigla o abandonarem em plena disputa presidencial.

 

 

VÍCIO DE ORIGEM

 

FHC andou dizendo, em entrevista a uma emissora de rádio gaúcha, que é “muito difícil separar o presidente do candidato”. É a melhor confissão de que o princípio da reeleição padece de um vício de origem, confirmando-se como uma excrescência inserida no contexto da política brasileira por aqueles que pretendem se perpetuar no poder.

 

JUROS E JURAS

 

Antes de iniciada a corrida sucessória, o Governo sempre reclamava que o sistema financeiro habitacional não tem como arcar com o rombo de caixa estrondoso, em decorrência da redução de prestações dos financiamentos antigos, em meio ao festival de pacotes econômicos que reduziram o poder aquisitivo do trabalhador. Iniciada a corrida sucessória, o candidato oficial já promete até redução nos juros dos financiamentos habitacionais.

 

AMIGOS, AMIGOS

 

Confirmada a candidatura de Itamar Franco ao Governo de Minas, incentivada pelo Palácio do Planalto para manter o ex-presidente afastado da sucessão presidencial, Eduardo Azeredo fica em posição de desvantagem na disputa. Com amigos como FH, Azeredo jamais precisará de inimigos.

 

 

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