Baratas

Eu ontem descobri que as baratas pensam. Eu sempre desconfiei disso, mas ontem tive certeza. Entrei no banheiro tarde da noite e encontrei uma baratona lá pelo chão, passeando. Na verdade, ela parou quando me viu, em tom ameaçador. Como todo mundo faz, tirei o chinelo e tentei acertá-la. Como acontece com todo mundo, errei todas as chineladas. A barata então correu para um bequinho que fica na pia do banheiro, aquele bequinho formado pela confluência das paredes. Eu tentei acertá-la com a ponta do chinelo, pois no ângulo em que ela se meteu não dava para acertar com a sola do chinelo. Ela ficou imóvel, não se mexia de jeito nenhum. Então eu pensei: ou eu consegui matá-la, ou ela está se fingindo de morta. E eu pensei: só vou saber se é fingimento se ela amanhã de manhã não estiver mais aqui. E quando eu acordei ela não estava mais lá.

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