Privada com mau cheiro

Coluna “Visão de Brasília”, de GERSON MENEZES, publicada no jornal TERCEIRO TEMPO, Edição Nacional, nº 148, de 1º a 15 de agosto de 1998. Rio de Janeiro – Editor: Mário da Cunha.

Impossível não exercitar a ficção escatológica em um país onde há laboratórios que confundem guaraná com urina, tendo em vista que confusões afins devem ser igualmente cometidas. Sabe-se que os laboratórios pouco afeitos ao rigor científico são todos da iniciativa privada. Tanto pior: se são da privada, maior ainda o compromisso de identificar urina. 

Mas não sejamos intolerantes: há algumas hipóteses para justificar o equívoco. Partem elas na verdade de duas vertentes básicas de raciocínio. A primeira delas é de que aqueles que examinaram o frasco perceberam a troca, mas se fizeram de bobos. Neste caso, telefonaram para o chefe e levaram adiante o seguinte diálogo: “Chefe, temos aqui um frasco de guaraná como se fosse de xixi”. O dono do laboratório corrigiu imediatamente: “Xixi, não, meu filho. Conforme os compêndios biológicos, o nome científico é urina. Bom, mas deixa pra lá. Como a identificação do guaraná fará com que os clientes não paguem os exames, é melhor fazer que não percebemos. Utilize as tabelas de praxe, e digite na ficha os resultados estatisticamente mais frequentes. Se o cliente não percebeu a diferença quando verteu, porque a sentirá quando apresentarmos nossa versão?”.

Na segunda hipótese, houve supostamente fatores previsíveis de sobra e o empregado do laboratório não percebeu absolutamente nada da composição em tela, ou melhor, no frasco. É que havia pressa, atraso no pagamento de salários – por sinal já muito abaixo da linha de sobrevivência com dignidade -, ou ainda a hipótese jamais descartável de contratação de pessoal não tão especializado assim, para possibilitar o pagamento de um salariozinho abaixo do mercado. Sabem como é: o mercado regula tudo. Aliado a isso tudo, talvez tenha sido acionada uma prática já consolidada pelo uso no sentido de, não havendo assim aparência tão estranha na urina, nem cheiro tão repugnante, classificá-la segundo os resultados mais prováveis. Uma hemaciazinha aqui, uma glicosezinha acolá, um baixo índice disto e daquilo, coisas tais e vamos em frente, que o sujeito que entregou não parecia assim tão abatido. E afinal de contas, o que é um examezinho de urina diante das técnicas atuais tão sofisticadas da medicina moderna na hora do diagnóstico?

 Não foi feito assim tanto alarde, mas, por uma dessas coincidências de irritar os capitalistas ditos modernos, os laboratórios todos que erraram eram da privada, e os dois que acertaram eram da pública. Talvez seja um dado significativo para acabar com a campanha difamatória contra tudo o que é público, essa mesma campanha que rotula de “qualidade comprovada” tudo o que é privado.  Nunca consegui avaliar com clareza por qual razão capitalistas-privatistas-fanáticos, como Roberto Campos e companhia, vivem (com perdão da palavra, mas afinal somos todos adultos) dizendo tanta merda. Agora descubro a razão: é que, a exemplo dos laboratórios privados, que confundem guaraná com urina, os privatistas confundem fezes com chocolate. Imaginem o que andam comendo nas festinhas de aniversário…

 

 

 

IMPOSTO IMPOSTOR

 

O lado imoral da CPMF, o chamado imposto do cheque, não é sua alíquota, mas sim a criação de um novo tributo para – supostamente – financiar um setor que já está coberto pelo Imposto de Renda. Agora, aparentemente incomodado com os índices desvantajosos na corrida sucessória, ou talvez numa tentativa de fazer média com os sem-terra, Luiz Inácio Lula da Silva – que sempre condenou a CPFM – surge com essa história de novo imposto para financiar a reforma agrária.

Está na hora de os assalariados reivindicarem os mesmos direitos para sobreviver. Afinal, todos são iguais perante a lei. Se o Governo, diante de supostos problemas de caixa em setores específicos, começa a inventar imposto para tapar buracos que já estão financiados pelo Imposto de Renda, o trabalhador há de ter o mesmo direito no salário: se não dá para pagar o aluguel, vamos estabelecer uma “alíquota” extra no salário para cobrir as despesas com aluguel. Se não está dando para arcar com as despesas de saúde e alimentação, vamos criar um bônus especial no salário para cobrir também esses gastos, e assim por diante. Se for para fazer valer a igualdade de tratamento, podem começar a criar imposto à vontade.

 

 

OFF SEM VERGONHA

 

Diz-se que o jornalismo no Brasil “inspira-se” no modelo norte-americano, que por sinal anda meio ruim das pernas, segundo deixam evidente alguns escândalos de informações divulgadas sem a devida apuração. Mas o maior problema no jornalismo brasileiro continua sendo o abuso do off the records, um artifício usado na verdade para proteger fontes de informação quando essa informação é devidamente comprovada e as fontes correm sérios riscos (inclusive de vida) caso seus nomes venham a público. No Brasil, no entanto, o usual passou a ser o emprego do off para reproduzir “declarações”, o que é uma autêntica aberração. “Declaração” sem autor é documento apócrifo, cujo destino deve ser a lata de lixo.

O jornal O Globo divulgou informação sobre processo movido pelo PT contra FHC em consequência de livro publicado com dinheiro público do qual constam opiniões do presidente da República. Na matéria, a “declaração” de que o episódio é “diferente” do que levou a Justiça a condenar o  deputado Moreira Franco por ter publicado livro que faz propaganda de sua administração. Opinião de quem? “De um ministro do TSE”. Além de “declaração” em off, O Globo publica “pré-julgamento” em off.

 

 

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