Brazil! Brazil! Brazil

Arquivo impresso não localizado

Publicação: final dos anos 1990

Jornal Terceiro Tempo – RJ

 

Viva a crise brasileira! Finalmente somos conhecidos no exterior! O pânico provocado pela incompetência da equipe econômica está levando o Brasil a ser conhecido em Wall Street, a ser comentado em Hong Kong, a ser temido na Argentina. No ritmo em que as coisas andam, daqui a pouco os americanos vão aprender que a capital do Brasil não é Buenos Aires.

Estamos todos orgulhosos! Apesar da falta de dinheiro no bolso, o fato de o Real ter caído na real está abalando as bolsas de valores do mundo inteiro! Imaginem só: de país conhecido apenas pelo seu futebol, pelo carnaval e pelos altos índices de violência urbana, o Brasil figura agora nas primeiras páginas dos jornais do mundo inteiro, por motivos que não são mais nenhum desses três. Só mesmo um presidente do gabarito de FHC poderia fazer o País ser tão conhecido no exterior! Ponto para os colunistas sociais: eles sempre disseram – reconheçamos – que o presidente estava destinado “a projetar o nome do Brasil no mundo inteiro”. E também para os analistas econômicos, que jamais deixaram de apostar no Plano Real como “o mais perfeito”, dentre todos os que foram arquitetados até agora.

Alguns jornais publicaram os comentários de um operador da Bolsa de Milão: ‘‘Seja lá qual for o nome, efeito samba ou caipirinha, o que importa é que nesta semana o mundo conheceu a extensão dos poderes da oitava economia do planeta’’. É a glória!!! Além de conhecerem “a extensão dos poderes da oitava economia do planeta”, os estrangeiros vão começar agora a ouvir falar com mais frequência em samba, e saberão até que existe a caipirinha, o que nos leva a deduzir que ficarão curiosos em saber o que significa essa palavra tão brasileira. Com isso, chegarão inevitavelmente ao termo “caipira”, o que pode servir de marketing para aumentar o turismo no interior brasileiro.

Foi nos jornais que lemos também notícias de quedas no mercado londrino, no francês e no alemão, por conta da crise brasileira, que evidentemente também está sendo sentida em Nova Iorque, como já lembramos com justificado orgulho! Tornamo-nos, finalmente, uma “potência internacional”. O chinês é outro povo que está falando diariamente no Brasil, uma vez que a crise brasileira pode afetar a moeda chinesa. Cálculos aproximados dão conta de que o nome do Brasil já foi escrito 1.898.996 vezes com aqueles caracteres engraçados do vocabulário chinês.

“Estamos no caminho certo”, disse o presidente na TV, seguramente com base no amplo noticiário que comprova ser o Brasil um país cada vez mais famoso no exterior. “Não vou demitir o Malan”, completou, numa declaração de resto óbvia, pois – afinal – como se pode botar no olho da rua um dos principais responsáveis por campanha publicitária de tal magnitude? O Pedro Parente, que sempre fica em segundo plano, ao ver o nome de Malan estampado nos jornais norte-americanos, externou um desabafo hollywoodiano: “Esqueceram de mim”.

Certamente o presidente está orgulhoso: foi ele quem sempre mais apostou no Plano Real, e agora colhe os seus resultados! O presidente da República tem agora argumentos de sobra para contestar aqueles que sempre o criticaram por colocar sua reeleição acima da urgência em corrigir os rumos do Plano. Ele sempre combateu também “os profetas do caos”, que, “neobobos” que são, insistiam em apontar riscos no valor fictício da moeda brasileira e na política econômica em vigor. Está agora regozijado: depois do fracasso da Copa do Mundo, o Brasil, finalmente, se projeta para o mundo!!!

 

 

NHÉM NHÉM NHÉM

 

A conhecida cantilena já teve início: “Salários serão preservados”, “mutirão contra a inflação”, “salário do trabalhador é a menina dos olhos do Governo”, “vamos fiscalizar os preços”… Quem não se recorda dos “fiscais do Sarney?”. O filme é tão velho e tão conhecido quanto todos os fracassados planos econômicos, que sucessivamente contribuíram para empobrecer a população brasileira. E ainda acham que, depois de tantas enganações, o povo tem paciência para conto da Carochinha.

 

TROCALETRAS

 

Após a aprovação da contribuição previdenciária dos inativos, o presidente da República foi para a televisão falar em civismo. Mais versado no Inglês, deve ter trocado o “n” pelo “v”.

 

SERRAGEM É POUCO

 

O senador Malvadeza (PFL-BA) disse que a oposição está convidada a “participar” das soluções para o Brasil, mas fez a ressalva: é preciso ficar de olho nos “trapalhões”. Certamente faz de conta que não sabe que “trapalhões” são exatamente aqueles que, como ele, esconderam da população as medidas amargas para tentar “remendar” o Plano Real, até que as eleições passassem.

 

  ULULANTE

 

Se ainda houver resquício de Justiça no Brasil, o resultado das ações para anular a cobrança da contribuição previdenciária dos aposentados não pode ser outro: vitória dos aposentados. Além de inconstitucional, a matéria não encontra respaldo sequer do ponto de vista conceitual: contribuição previdenciária é para quem vai se aposentar. O que está havendo é confisco. Então, que se chame ao menos pelo nome.

 

MANIPULAÇÃO

 

 

Como já seria de se esperar, a Grande Imprensa (Grande em quê?) dedicou-se a manipular o noticiário em favor do Governo, no caso da moratória em Minas. O Correio Braziliense (DF) publicou matéria dizendo que até mesmo os governadores de oposição estariam “contra” a atitude de Itamar, e “ilustra” tal conclusão com uma declaração do governador petista Olívio Dutra, do Rio Grande do Sul, dizendo que “prefere a negociação à moratória”. Evidentemente, isto não é exatamente estar “contra” Itamar, até porque o próprio governador de Minas preferiria a negociação, e optou pela moratória em razão da postura do Governo no sentido de não arredar pé do acordo-abacaxi com o então governador Eduardo Azeredo. É o próprio Correio Braziliense quem admite, logo em seguida, que a dívida de Minas subiu 171% durante o governo do antecessor de Itamar. Quando o tucano Azeredo assumiu, Minas devia R$ 6,8 bilhões. Quando ele deixou o Governo, esse valor estava em R$ 18,5 bilhões, informa o jornal brasiliense. Com isso, têm-se idéia da dimensão do problema.

 

CONTRADITÓRIO

 

Estranha a atitude do Governo, ao voltar atrás em sua decisão de deixar “o mercado” regular o preço do dólar. Afinal de contas, não são os neoliberais que apregoam a todo instante a infalibilidade do mercado quando a tarefa é  exatamente a de regular preços?

 

APELIDOS

 

Novo nome do Real: dólar furado.

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