Você sabe o que é DITADURA?

Eu não costumo falar com frequência de mim mesmo nos meus vídeos, mas desta vez vou abrir uma exceção. Não me considero um intelectual, embora respeite a opinião de quem assim se refere a mim. Intelectual para mim era Jose Guilherme Merquior, cujas palestras eu comecei a assistir ainda quando eu era um adolescente, por volta dos 17 anos de idade.

Embora, evidentemente, eu possa citar outros intelectuais, preferi citar minha admiração pela sabedoria de Merquior porque ele era um determinado crítico do marxismo. Merquior era um erudito que entendia muito de literatura e de muitos outros temas, aos quais se referia sempre com muita propriedade, daí minha referência a ele.

Certa vez, ao participar de uma dessas palestras na época em que José Guilherme Merquior estava muito longe de ser chamado de velho (algo que ele nem chegou a ser, pois morreu com apenas 50 anos de idade) ouvi de uma das pessoas que estavam na plateia uma frase interessante. Foi algo mais ou menos assim, segundo a passagem de um longo tempo me permite ainda lembrar: “Eu já tive a sua idade, mas nunca tive a sua sabedoria”, falou para ele o senhor que estava na plateia.

Ser sábio é para poucas pessoas. E ser sábio ainda jovem é algo menos comum ainda. E menos comum ainda nos dias de hoje, em que supostos jovens têm ideias velhas e, pior ainda, deixam evidente sua exuberante ignorância, e, tenho que acrescentar, muitas vezes burrice.

Com a suposição de que estão incomodando, ou mesmo ofendendo, alguns jovens autodenominados direitistas chamam de esquerdista quem diz o que eles não querem ouvir sobretudo quando é algo que se refere ao campo social. Eu já externei em vários vídeos que essa conceituação direita/esquerda anda meio desatualizada, mas querer reduzir o debate a esses rótulos, ainda assim, não é o mais grave. O mais grave é achar que esquerdismo é sinônimo de comunismo. Um esquerdista pode ser ou não comunista, mas uma coisa não tem a ver com a outra, obrigatoriamente. E quem confunde as coisas é exatamente o oposto de José Guilherme Merquior, ou seja, é um grande ignorante, enquanto Merquior, conforme já assinalei, era um erudito que criticava o marxismo mas falava com muita propriedade sobre temas que ele estudava com profundidade.

Pois eu me lembrei de Merquior quando fui chamado de doutrinador comunista por um desses ignorantes que pululam na internet como papagaios falantes. Eu sempre respeitei as críticas de Merquior ao marxismo e sempre respeitarei as de qualquer um que se pronuncie sobre qualquer tema com conhecimento e não como resultado de doutrinação.

Você já reparou como se comportam os doutrinados? É muito fácil identificar todos eles, pois os rótulos e os chavões são cansativamente e doentiamente repetitivos. Parece que dão a eles uma página para decorar e eles repetem sempre o mesmo blablabla. Eu já me posicionei claramente, em várias ocasiões, contra aquilo que chamo de ideologismos, e já externei também minha oposição ao comunismo por considerar que ele vai contra a natureza humana, o que certamente deve ter provocado, também, a ira de marxistas fanáticos. Tenho amigos à esquerda e à direita, desde que sejam ao menos inteligentes.

Ter pessoas de esquerda e de direita é obviamente uma consequência natural da política, em que um dos pressupostos é sempre o de ter um adversário. Não há democracia quando há apenas direita ditando regras, da mesma forma que não há democracia quando há apenas esquerda ditando regras. Além, é claro, de outras características próprias de uma democracia sobre as quais os ignorantes nunca de dispõem a estudar. Democracia exige debate, mas debate de ideias, e não debate de quem não tem a menor ideia do que está dizendo. Esses só fazem confundir ou atrapalhar, muitas vezes intencionalmente, é óbvio.

Nunca direcionei e jamais direcionarei meus posicionamentos com base naqueles que vociferam ignorâncias. E serei, sempre, um determinado combatente contra extremismos, tanto à esquerda quanto à direita. Pois são os extremismos que resultam em totalitarismos, a mais danosa de todas as consequências das ditaduras. Os totalitarismos produzem desgraças, produzem execuções sumárias, produzem o sufocamento da justiça. Pior ainda: os totalitarismos produzem a confusão de vingança como se significasse justiça, quando são duas coisas completamente diferentes.

Muitos que não me conhecem, que nunca conversaram comigo e nem sequer assistiram aos meus vídeos nem leram uma página sequer dos mais de 15 mil textos que eu já escrevi me chamam de comunista em ocasiões em que combato ditaduras e em que me posiciono claramente sobre questões sociais que jamais trairei. Não me abalo com essas críticas. Rejeito apenas as que são produzidas por quem não possui sequer dois milímetros de cérebro.

Entre esses estão os que defendem a tal Escola Sem Partido, mas não como uma forma de eliminar o que eles chamam de doutrinação de esquerda, e sim como manipulação para substitui-la pela doutrinação de direita. Mas, evidentemente, se você defende que universidade, em qualquer parte do mundo civilizado, é um centro de debates, você será logo tachado de comunista.

Vejo também quem combata a laicidade do Estado, quando efetivamente o Estado tem que ser laico. Eu nunca fui inclinado a adotar religião como diretriz dos meus pensamentos e das minhas atitudes. Aos que cultuam a Bíblia sem nenhum espírito crítico, lembro que ela tem dezenas de traduções diferentes e pode ser usada para o bem ou para o mal, dependendo de quem está de posse dela. Lembro também que a KuKluxKlan, seita racista que praticou crimes da maior atrocidade nos Estados Unidos, foi fundada tendo uma Bíblia no altar.

Embora eu não me prenda a religiões, defendo o direito que cada um tem de escolher a sua própria religião, sem querer impô-la a ninguém. E o fato de eu não ser um religioso não obstaculiza o meu direito legítimo e democrático de criticar dogmas que eu considere ultrapassados, manipuladores e repressores, sem impor minha avaliação aos que defendem esses dogmas. Para criticar os dogmas, eu tenho que ouvir os dogmáticos. E tenho o direito de esperar que eles tenham igualmente a dignidade de me ouvirem.  

Democracia é a convivência civilizada dos contrários, com respeito mútuo, embora a tal da humanidade esteja cada vez menos civilizada. O lamentável é que tantas pessoas não percebam isto.

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