Violência contra crianças e a pregação dos “adultos”

(Sobre notícia publicada no Correio Braziliense em 07/01/2016, em que mãe adotiva é apontada como responsável pela morte de bebê de apenas 11 meses por espancamento, em Taguatinga Norte, DF)

 

As pessoas que “preceituam” surras nos filhos certamente irão contestar que estão errando e não irão admitir que isso não é educar. O absurdo caso dessa mãe que espancou um bebê de 11 meses até a morte é muito mais frequente do que se imagina. E o procedimento dela ao perceber que a criança estava morta também é usual: dizer à polícia que o filho “caiu” e se machucou.

São casos tão frequentes que, quando eu era editor de uma revista sobre Seguridade Social, publiquei matéria sobre a proposta do engenheiro paulista Paulo Bergamo em que ele estabelecia a necessidade de interligação entre as delegacias de polícia de modo a detectar esses casos. Paulo, que é meu amigo pessoal, está atualmente nos Estados Unidos, onde brilha com a exposição de seu conhecimento como profissional respeitado, e não sei em que pé anda essa sua proposta. Tomara esteja sendo amplamente implantada, mas tenho minhas dúvidas, porque se sabe o descaso com que matérias dessa importância são tratadas no Brasil.

O procedimento sugerido por ele é demasiadamente simples: cada vez que uma mãe ou um pai chega a uma delegacia com esse tipo de alegação (“a criança caiu”), faz-se uma verificação se não há reincidência. Sim, porque essas crianças são vítimas do mesmo crime por várias vezes, pelas mesmas pessoas, ou seja, a criança é espancada continuamente, até que um dia ocorre a fatalidade: a morte. E os pais costumam recorrer a delegacias diferentes para tentarem escapar das punições a eles próprios em decorrência dos seus atos de extrema covardia.

Ora, não se venha com a alegação de que isso “é diferente” da pregação de se educar os filhos com pancadas. As manifestações desse tipo tendem a generalizar o “entendimento” de que surras levariam os filhos a se tornarem pessoas corretas e educadas, e que isso impediria que essas crianças se marginalizassem.

Total aberração. É o mesmo que dizer que os marginais de hoje nunca apanharam e que sempre foram educados “com carinho”. Surra nunca foi uma forma de educar. Surra é “educação” somente por parte de quem não tem força moral para educar os filhos, porque essas próprias pessoas não são dotadas de preceitos morais para gerirem suas próprias vidas.

A cada vez que se apregoa esse tipo de “procedimento”, aumenta a sensação, por parte de pais e mães que não sabem educar (a grande maioria), de que podem se abster de culpa ao espancar os filhos. Não se quer aqui dizer que as crianças devem ser educadas sem limites, fazendo o que quiserem. Óbvio que não. Mas educar é totalmente diferente de surrar, porque há inúmeras formas de se impor limites.

A violência contra crianças, como de resto boa parte de qualquer violência, é resultado inúmeras vezes da tensão de situações que levam as pessoas a extravasarem nos seus comportamentos. E se, já como premissa, preceitua-se surra nos filhos, gera-se, adicionalmente, a “cultura da violência”, e disso a sociedade e o mundo já estão fartos.

É importante observar que as pessoas que muitas vezes condenam violência contra adultos são as mesmas que defendem violência contra crianças como forma de “educação”. Ora, do mesmo jeito que jamais se poderia concluir que um marginal “nunca apanhou” dos pais na infância e por isso “se tornou marginal”, certamente jamais poderia se concluir que uma criança educada conforme os preceitos corretos, com atenção, carinho, imposição de limites sem violência física, irá se transformar “num marginal”.

Quem espanca os filhos não está educando, está simplesmente perdendo a paciência. E se absorve a cultura da violência, tanto mais estará disposta a espancar os filhos, sob a influência dessa nefasta pregação de que isso seria “correto” e “admissível”. Defendem leis para proteger adultos da violência, mas não as crianças. Isso sim, é o ápice da covardia.

Há ainda quem, sem a menor cultura ou conhecimento das coisas, torce o nariz para tudo o que diga respeito a preceitos psicológicos. A Psicologia, como qualquer ensinamento ou aprendizado humano, está sujeita a eventuais enganos de interpretação, mas certamente são enganos corrigíveis e extremamente menos danosos do que a violência praticada contra crianças, que se alastra em dimensão preocupante.

As pessoas, de um modo geral, preceituam para si mesmas a necessidade de fazerem cursos e de frequentarem universidades. Mas nunca reconhecem sua própria ignorância e a necessidade de fazerem um curso para aprenderem a educar seus próprios filhos, já que não têm muitas vezes a menor noção de como educar. Seria bom que tivessem a humildade de reconhecer isso e se especializarem, antes de tudo, na ciência de educar crianças. Pois ela existe, e é altamente benéfica, não só para as crianças, como para o futuro da humanidade.

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