Violência: a culpa é da sociedade. E não adianta ignorar isso

 

Arquivo impresso não localizado

Publicação: final dos anos 1990

Jornal Terceiro Tempo – RJ

 

 

 

Toda essa lenga-lenga que surge, de pessoas defendendo mudança de leis, adoção de pena de morte e outras sandices, cada vez que ocorre um crime bárbaro, nada mais é do que uma forma medíocre (e cínica) de adiar as verdadeiras providências que devem ser tomadas para diminuir a criminalidade no Brasil. Uma das primeiras providências seria acabar com esse inadmissível sistema de educação em meio-período. TODAS as crianças, adolescentes e adultos jovens têm que ficar na escola das 8 da manhã até, no mínimo, às 17 horas, não apenas estudando, mas praticando esportes, atividades artísticas e outras práticas de socialização. Quero saber quem teria a coragem de dizer que, se TODOS permanecessem na escola o dia inteiro, ainda haveria margem para que a violência e a criminalidade não diminuíssem significativamente. O tristemente engraçado é o seguinte: votar é obrigatório, o serviço militar é obrigatório, pagar imposto de renda é obrigatório, e não se transforma em obrigatória a freqüência diária à escola. As famílias que não mantivessem seus filhos na escola em período integral deveriam receber sanções do Estado. Mas, para isso, é lógico, será necessário INVESTIR altas somas para que se tivesse não apenas escolas em número suficiente, como também QUALIDADE DE ENSINO e remuneração honesta para os PROFESSORES, que por sua vez deveriam ser submetidos a um rigoroso processo de especialização.

Mas tudo isso sairia “muito caro” e a sociedade não quer pagar esse preço: prefere as propostas simplistas, que nada resolvem. Não seria necessário criar nenhum programa novo, como o que foi inventado para “combater a pobreza”. Os recursos existem, basta direcioná-los para o que é realmente prioridade. Então, é a sociedade, em síntese, a maior responsável pela violência, pois não se dispõe a pagar o alto preço que se exige para, de fato, estancar a violência crescente. Seria necessária verba menor do que os bilhões que pagamos anualmente aos banqueiros internacionais, para citar apenas um exemplo. É tudo uma questão de prioridade. Os recursos existem.

Sei que o Correio destina pouco espaço para as cartas dos leitores, mas é indispensável chamar a atenção para mais um “pequeno” detalhe: é óbvio que assassinos não devem ficar impunes. Mas as leis servem para punir os criminosos depois que os crimes já ocorreram, e isso não vai trazer as vítimas de volta. Não se trata de defender a impunidade, como meia dúzia de dementes já pode começar a deduzir. É necessário agir sobretudo para IMPEDIR QUE OS CRIMES OCORRAM, e isso se chama ação preventiva, cujo pilar básico é a educação e a prioridade para o investimento social. Vamos encarar as coisas de forma honesta: será que, se TODAS as crianças, adolescentes e adultos jovens freqüentassem a escola em período integral, haveria ainda possibilidade de que eles viessem a praticar crimes? Eles sairiam da escola no final da tarde para matar pessoas? É preciso lembrar também que não seria suficiente apenas a socialização das pessoas, mas também a ressocialização dos que já estão no caminho do crime, que teriam – é lógico – que enfrentar um longo período separado dos demais alunos. Mas isto também sairia “muito caro”. Vamos partir para soluções “mais baratas” e simplistas, é o que se dispõe a propor a mediocridade predominante. E a criminalidade vai continuar aumentando assustadoramente, disso não há a menor dúvida.

Punir os responsáveis por crimes é providência indispensável, mas isso não vai trazer de volta o menino assassinado, nem eliminar a dor dos pais que o perderam. O indispensável é que a sociedade queira e exija que se pague o preço necessário para estancar a criminalidade. Se leis severas e pena de morte resolvessem, os países que as adotam já teriam banido a criminalidade. Ao contrário disso, há estudos sérios que demonstram que, nos países que adotam a pena de morte, a criminalidade nunca diminuiu, e até mesmo aumentou. Então, está na hora de dar um basta à sandice e tomar vergonha na cara para de fato encarar a questão da criminalidade de frente. Do contrário, mais dia, menos dia, TODOS seremos vítimas dela, em maior ou menor grau.

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