Trechos do livro

Trecho 1

Ela chegou a ter o impulso de afastar-se, mas permaneceu no mesmo lugar, igualmente desafiadora, ainda ao alcance dos seus olhos. Estava perfumada, a pele fresca após o banho, lânguida, irresistível. Parecia também lançar-lhe o desafio: aqui no pátio da escola você tem que contentar-se em me olhar, em se excitar sem poder me tocar, em admirar minha beleza sem poder se deliciar num contato mais íntimo. “Tenho 26 anos… mesmo…”

Trecho 2

Justine morava num apartamento térreo, onde havia uma área contígua liberada para um pequeno jardim. Por isso, era-lhe permitido pensar na idéia de criar algum animal no apartamento, e Hernandez deu-lhe uma cadela inglesa da raça beagle. Era um animal dócil e pensativo, que nunca fazia barulho e jamais latia, de modo que um bom passatempo para Justine foi passear com a cachorrinha pelas ruas do bairro, especialmente nos fins de semana. A cadelinha ficava agitada apenas nos momentos em que Justine pegava a coleira, pois adivinhava que iria passear, um dos seus passatempos prediletos. Justine deu-lhe o nome de Libertad, em homenagem à origem hispânica de Hernandez, e àquilo que ela mais prezava no mundo. Um vizinho de Justine apelidou a cadela de “Freedom”, sob o pretexto de que não havia sentido em dar-lhe um nome hispânico, sendo ela de origem inglesa e além do mais residente na América do Norte. O curioso é que, num impulso multilíngue quase indecifrável, Libertad atendia a ambos os chamados, e quando o vizinho passava pelo jardim e gritava por Freedom, ela vinha ao seu encontro abanando o rabo.

“Ela entende a liberdade em qualquer idioma”, brincou Justine num dia em que saiu para passear com a cadela em companhia de Hernandez. “É como você”, devolveu Hernandez, maliciosamente, como a referir-se à maneira como Justine sempre se comportava.

Trecho 3

Beatriz quase não dormiu naquela noite, pensando na amiga que fora violentada. A amiga não teve defesa: estava no ponto de ônibus, pronta para pegar a condução que a levaria ao serviço, quando chegaram três homens. Era de madrugada, porque tinha que sair muito cedo de casa para ir trabalhar. Às 4 e 30 da manhã já estava de pé, tomando o café com leite, às vezes com um pedaço de pão, e pouco depois das 5 da matina tinha que estar na parada, para conseguir chegar antes das 8 ao serviço.(…)

(…)Os homens a seguraram depois de intimidá-la com armas a ir para um local ermo. Não reconheceu nenhum dos três, o que significou uma tênue esperança de vida. Sabia que a identificação dos algozes era o primeiro passo para a morte. “Ela vai nos cagüetar”, teriam dito os homens, e a teriam matado. Mas ela não reconheceu ninguém, e o primeiro erro que cometeu foi banhar-se com sofreguidão do nojo que tomava conta do seu corpo. Mas chegou a reconhecer um por um na delegacia, quando lhe mostraram fotos de suspeitos. E depois os policiais a humilharam, dizendo que ela os havia provocado com aquela roupa justa.

Trecho 4

Não era uma ameaça, tampouco. Justine se lembrava ainda da forma terna como se aproximaram, ele agindo como um verdadeiro gentleman, ela curtindo a sua delicadeza bem dosada, embora explícita. Tudo o que acontecia agora fazia parte de um momento difícil, e foi isto que chamou-lhe a atenção: estava vivendo uma paixão intensa, cheia de vida, e até mesmo alguns momentos de euforia com Robledo, e no entanto era um momento tenso em certo sentido, pelas preocupações que trazia. Como a vida era contraditória; como viver nos pune, às vezes.

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