Política do ódio pode mudar o Brasil para bem pior

Antes que os fanáticos fiquem agitados, quero avisar logo de início que não vou fazer campanha nem contra, nem a favor, mas apenas refletir sobre questões que devem preocupar todos os brasileiros.

Há sempre uma reação muito forte no Brasil de hoje à opinião contrária. O debate deu lugar ao ódio, às inimizades, aos rótulos e aos xingamentos. Até ofensas pessoais são desferidas quando se comentam questões que não têm nada a ver com o lado pessoal de quem quer que seja.

E existem também aqueles que recorrem aos sofismas, colocando na boca das pessoas coisas que elas não disseram.

Quem está lamentando ou comemorando o resultado das eleições tem que ficar atento para uma realidade imutável: a História é cíclica.

Ou, recorrendo ao adágio popular, não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe. Disso depende, evidentemente, o conceito que cada um tem de bem e de mal.

Se a máxima segundo a qual bandido bom é bandido morto fosse aplicada à risca, boa parte da população seria extinta, não só no Brasil como no mundo. E entre os extintos estariam muitos dos que se auto-intitulam pessoas do bem.

(Assista ao vídeo ou continue lendo a seguir)

Neste canal nunca criticamos algumas das diretrizes que estão sendo previamente anunciadas para o campo econômico, muito pelo contrário. Descentralização de poder e mudança do modelo da Previdência estão em pauta. Curiosamente, o futuro ministro da Economia tem falado em substituir o modelo de repartição da Previdência pelo de capitalização, num discurso parecido com o de um candidato que era apontado como de esquerda. Evidentemente as regras dessa mudança podem não ser as mesmas do tal esquerdista, como rotulavam os partidários do eleito. Mas isso comprova mais uma vez o que sempre dissemos em relação à caducidade desses conceitos (ESQUERDA/DIREITA).

E também estamos exaustos de tanto repetir que o mundo está mudando vertiginosamente. Se você tem acompanhado o que acontece no mundo financeiro, certamente já ouviu falar no bitcoin e está ciente de todas as críticas que vem recebendo as chamadas criptomoedas. Mas pode ser que você não saiba que, se você tivesse aplicado o equivalente a 100 reais no ano de 2010 em bitcoins, teria hoje o equivalente a 5 milhões e 900 MIL reais em razão da valorização da moeda digital ao longo desse período.

Apesar das lições da História, há os que não aprendem com o passado e, em vez de avançarem com base nessas lições, querem retroceder. Estão entre esses, os  que preconizam a volta da ditadura ou que se mostram favoráveis à retórica totalitária. É o equívoco típico dos que ignoram que a História ensina, e preferem negá-la, em vez de aprenderem com ela.

Quando se menciona a reação internacional negativa a isso tudo, os haters e analfabetos políticos dizem que o presidente eleito não está nem aí para reações internacionais. Ora, isso é de uma estupidez cavalar, pois nenhum país sobrevive hoje isolado do cenário internacional. Os que pronunciam bobagens como essa parecem preconizar, então, aquilo que eles próprios sempre atacaram: que o Brasil se torne uma Cuba ou uma Venezuela, que sofrem exatamente as consequências do isolacionismo imposto pelos ideologismos. Tanto faz ser de esquerda ou de direita, ressuscitando os velhos conceitos. Isolacionismo no mundo de hoje significa ser conduzido ao caminho da falência econômica.

Ao posicionar-se enfaticamente pelo alinhamento automático com os Estados Unidos, o governo eleito impõe ao Brasil barreiras comerciais que contradizem qualquer discurso de estabelecer relações internacionais de grande amplitude em período de imensas dificuldades na chamada aldeia global. É, na verdade, retornar ao estreitamento ideológico, desta vez de direita, repelido até mesmo pela ditadura militar a partir do governo Geisel, que passou a adotar o que ele chamou de pragmatismo responsável para impulsionador grandes acordos com parceiros que valorizassem efetivamente os produtos que o Brasil sempre teve a oferecer.

Ora, alinhar-se aos Estados Unidos significa afastar-se da China, por exemplo, nosso maior parceiro comercial, entre outras consequências preocupantes no cenário econômico atual. Isso pode até seduzir o público interno menos informado que reduz as relações internacionais à miopia provocada por rótulos anti-esquerdistas ou anti-comunistas.

Esse efeito perverso se reflete ainda no desprezo às relações com o Mercosul, organização que os Estados Unidos sempre procuraram enfraquecer. O Mercosul agrega nossos vizinhos latino-americanos e esse discurso visa a propagar a visão enganosa de que o bloco sul-americano foi construído com viés ideológico. É o mesmo discurso que tenta produzir repulsa política ao bolivarismo que estaria representado pela Venezuela, que por sinal nem faz mais parte do bloco, desde 2016.

Como já mencionamos, sofismas e o vício de atribuir às pessoas o que elas não disseram, constituem outros dos inúmeros vícios dos fanáticos e dos analfabetos políticos. Nós nunca defendemos, e aliás até já combatemos explicitamente, o exibicionismo de homossexuais com seus exageros em praça pública. Exibicionismo esse que já condenamos também entre os heterossexuais. Mas isso não significa apoiar que uma transexual seja atacada a marteladas nem o assassinato de pessoas que têm opção sexual diferente da nossa.

Da mesma forma, o discurso pretensamente cristão do recém-eleito não combina em nada com cenas que lembram o fanatismo religioso do Estado Islâmico, que por sinal pretende exterminar exatamente os cristãos. E são eles (os integrantes do Estado Islâmico) que ensinam as crianças a atirar, como fez o recém eleito ainda em campanha, ao segurar uma criancinha no colo e simular com ela o gesto de apontar uma arma.

Ora, o discurso surrado dos ideologismos, como costumamos chamar, referindo-nos ao fanatismo doentio de pretensos ideólogos, remete-nos apenas ao atraso da barbárie. Não há legitimidade nos tribunais sem o direito ao contraditório. Não há legitimidade num Parlamento destituído de oposição.

Eu não sei, e talvez ninguém saiba, em que ano exatamente foi inventada a balança. Mas é certo que foi há muitos séculos. E até o inventor da balança já sabia que o equilíbrio é fundamental, bem como o peso certo. E que ambos os lados devem ser ouvidos para se chegar ao equilíbrio e ao peso certo.   

Tancredo Neves costumava dizer que existe um discurso para a campanha e outro discurso para governar. Mas, das duas, uma: ou isso não foi absorvido ainda pelos eleitos, ou eles vão efetivamente colocar em prática tudo o que apregoaram em campanha. Por mais assustador e absurdo que possa ser.

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