Palmada, para que te quero?

Desde que a proposta começou a ser debatida, uma enxurrada de bobagens foi publicada nos jornais e nas chamadas redes sociais, por pessoas que sequer tiveram o cuidado de ler o texto do projeto, que, para quem não sabe (exatamente porque não leu), em nenhum momento menciona o termo “palmada”. Aliás, essa é uma forma de desvirtuar e de desmoralizar o debate, mediante a conhecida técnica de “diminuição” ou de “simplificação” da proposta em si. Os críticos, portanto, partem de um pressuposto desonesto, ao tentar conferir ao projeto a fachada de “bobagem”.
O texto fala em violência contra a criança, e o que se argumenta (será isso mesmo um “argumento”?) é que o Estado “não tem o direito” de legislar sobre a relação entre pais e filhos, visto que isso seria uma “interferência indevida” na vida pessoal das partes envolvidas. Ou seja: o Estado interferir para impedir ou punir a violência do adulto contra o adulto pode (o que é correto e louvável). O Estado interferir para impedir ou punir a violência contra os homossexuais pode (o que é correto e louvável). O Estado interferir para impedir ou punir a violência contra as mulheres pode (o que é correto e louvável). O Estado interferir para impedir ou punir a violência contra os negros pode (o que é correto e louvável). O Estado interferir para impedir ou punir a violência contra animais pode (o que é correto e louvável). Mas o Estado interferir para impedir ou punir a violência contra crianças não pode. Isso não é apenas uma postura equivocada e absurda. É, antes de tudo, uma postura covarde, porque pressupõe salvaguarda para quem comete a violência contra seres que sequer podem se defender, ao contrário de adultos, homossexuais, mulheres, negros e animais. 
Uma das maiores imbecilidades (desculpem-me, não consigo utilizar termo mais ameno) que eu li foi perpetrada e fartamente divulgada por um sujeito que disse que preferia “desobedecer a lei da palmada” do que ver seu filho desobedecer “o Código Penal inteiro”. Respondi a uma dessas bobagens, que recebi por e-mail, com uma constatação óbvia, mas inquestionável: se todo mundo que levasse uma palmada respeitasse o Código Penal não haveria sequer um preso no Brasil.
Impossível responder a todas essas idiotices, mas é fácil concluir sempre o óbvio, embora o óbvio muitas vezes esteja fora do alcance de todos os que imaginam ter um cérebro entre o couro cabeludo e as mandíbulas: pais e mães não batem nos seus filhos por verem nisso uma forma de “educar”. Pais e mães batem nos filhos por terem perdido a paciência com eles. Ou seja: a surra é o impulso resultante da impaciência e, por consequência, da fraqueza. E é o impulso que resulta também da noção equivocada de que um filho é uma “propriedade” contra a qual se pode tudo (o filho é “meu”…) Seria, numa analogia, apoiar o homem que bate na esposa a partir do mesmo pressuposto segundo o qual a mulher “é minha”. Com a diferença – repita-se – de que uma mulher, por mais frágil que seja, tem sempre mais condições de se defender, ainda que a dentadas, do que uma criança inocente. 
O desrespeito às crianças não é distorção encontrada apenas no Brasil. Quem já viajou à França sabe que em várias lojas de Paris há cartazes nas lojas proibindo a entrada de crianças, enquanto as madames entram nas mesmas lojas com seus cachorros, sem que ninguém as impeça. Em países desenvolvidos, como a própria França, corre a versão de que as crianças carregam um semblante de infelicidade porque, como os imóveis são pequenos, as crianças tornam-se muito irritadiças e irrequietas e acabam… apanhando com mais frequência. Chama-se a isso de “educar”? Não é por outro motivo que a França foi um dos últimos países ditos “civilizados” a abolir os castigos físicos nas escolas (se é que já os aboliu realmente….)
Eu tenho que confessar algo que já confessei em um dos meus livros. Uma única vez, em toda a minha vida, dei um pequeno tapa na mãozinha de uma de minhas filhas, porque julguei que ela tivesse agredido a irmã maior, que realmente simulava dores de uma agressão que até hoje não sei se realmente ocorreu, pelo menos na mesma proporção da “dor” que ela simulava. Bastou-me a lembrança da expressão sofrida de minha filhinha diante de uma “palmadinha” na mão para que eu ficasse uma semana sem dormir, e a vida inteira sem me perdoar, porque efetivamente jamais me perdoei e jamais me perdoarei por aquele “tapinha” de leve que eu apliquei numa mãozinha inocente. Foi seguramente um ato de covardia, produto da falta de paciência, da prepotência dos que se julgam no direito de aplicar reprimendas mediante o pressuposto de que está “educando”. E até hoje, quando escrevo essas linhas, sinto remorso por aquela atitude impensada. Um remorso que me dói profundamente na alma. Minhas filhas, portanto, nunca levaram nenhuma surra de mim, e nem por isso transgrediram o Código Penal.  

 

3 comentários em “Palmada, para que te quero?”

  1. Muito bem analisado, Gerson. Fui educado na base da palmada – muita – e em nada isso mudava os comportamentos que eu tinha na infância. Cresci e pai, jamais usei castigos físicos na relação com minha filha, hoje com 14 anos. Minha mãe a acha um exemplo de criança, uma menina maravilhosa. E ela nunca apanhou, nem apanhará. Não existe “palmada educativa” ou “tapinha construtivo”. Violência é violência. Contra quem não pode se defender, então, é cruel e absurdo.

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  2. Priscilla Araujo

    Bem observado, Gerson. De fato, ao que parece, muitos “críticos” da proposta querem mesmo é baderna, e ficam criando “complementos” ao texto para atiçar a resistência da população ao verdadeiro objetivo da lei que, nesse caso, vai permitir ao Estado interferir para evitar ou punir qualquer violência contra as crianças. Também já levei muitas palmadas, não só quando criança, mas já adolescente também. No entanto, digo com toda sinceridade que aprendi mais com as palavras e, até mesmo os olhares do meu pai, do que com aquelas chineladas.

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  3. Muito bem dito.
    O que o Brasil precisa primordialmente é de “menos ignorância”. Bom seria se todos pudessem ler um texto esclarecedor como esse.

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