Os dinossauros e suas bocarras indisciplinadas

Tem gente que alimenta uma tremenda ojeriza por tecnologia. Eu ainda acho pouco a que existe. Deveria haver um sistema que nos permitisse localizar todos os endereços, números de telefone fixo e de celulares dos amigos de muitos anos. Quando ficamos por muito tempo sem falar com essas pessoas, invariavelmente os dados todos que temos mudaram. É incrível, porque o número do meu telefone acho que não muda há pelo menos dez anos. Um dos meus celulares também conserva o mesmo número há mais de uma década. Mas quando tento ligar para pessoas que não vejo há muitos anos, invariavelmente os números não são os mesmos. Endereço de e-mail é a mesma coisa: volta sempre aquele insuportável aviso de failure notice, deixando claro que, se não batalharmos muito, vai ser difícil encontrar aquela pessoa de novo. Então, os dinossauros que me perdoem, mas tecnologia não faz mal a ninguém. Um sistema de “busca” ultramoderno me faria bem, obrigado.

Pensei nisso ao ligar para o meu amigo Marcondes, um dos sujeitos que mais tem raiva de computador em todo o universo. É claro que, como todo dinossauro que se preze, ele conserva muitas contradições em sua bem alimentada ojeriza. Certa vez ele me disse que era contra o computador porque a máquina pode fazer o trabalho de muita gente ao mesmo tempo, o que “tira o emprego das pessoas”. Só que ele é um viajante contumaz e lhe tasquei a contradição: “Então, não viaje mais de avião, porque, se somente existisse carroça, em vez de um só piloto para transportar mais de 200 pessoas, seriam necessários vários condutores de carroças para levar um a um dos passageiros”. Mas ele, é lógico, continua viajando de avião, e duvido que vá de carroça de Brasília para o nordeste. Só para citar um exemplo.

O meu amigo Marcondes é uma pessoa muito inteligente. Um dos sujeitos mais inteligentes que eu conheço. Mas ele que me perdoe: qualquer ojeriza preconceituosa é burra. Eu comecei a escrever meu primeiro livro usando uma das velhas máquinas de datilografia. Felizmente, nos intervalos provocados pela minha indisciplina ao escrever, surgiu a famosa máquina que os dinossauros odeiam. E terminei de escrever meu livro usando um computador. Ainda bem que a bendita máquina foi inventada a tempo…

Tudo depende de você não encarar a coisa com preconceito. Computador é ferramenta, e para escrever é seguramente a melhor máquina inventada até agora. “Meu caro – digo ao meu amigo –, eu uso computador como instrumento que me seja útil. É para não ter, por exemplo, que ‘datilografar’ de novo um texto inteiro só para mudar uma frase ou mesmo uma palavra de lugar”. Isso, lógico, entre outros infinitos recursos. Mas os dinossauros, presos à rocha imutável do conservadorismo, preferem optar por não entender algo tão óbvio.

É lógico que o defeito não está na tecnologia, mas na forma como as pessoas a utilizam. Outro dia li que um chinês morreu porque ficou não sei quantos dias jogando em frente à tela de um computador. Azar dele: quem mandou não saber usar a máquina. Aliás, essas pessoas não usam a máquina (corrijo-me rapidamente): as máquinas é que usam essas pessoas. Elas se deixam usar pelo fanatismo inverso ao do meu amigo Marcondes: em vez de odiarem o computador, morrem (literalmente) de amor por ele. Aí já é demais.

Eu quero ver o que vão argumentar esses dinossauros se tiverem uma doença grave e forem obrigados a ser valer da tecnologia a serviço da medicina para se curarem. Certamente irão inventar qualquer desculpa esfarrapada (pois toda desculpa sempre é esfarrapada). Vão se borrar de medo da morte e sucumbirão às modernidades da tecnologia para buscar uma saída para os seus males físicos. Então, não me venham com essa. Tecnologia foi feita para ser usada direito. Se não acontece isso, a culpa não é da tecnologia, mas de quem a utiliza.

Eu quero ver é se esses sujeitos que têm ódio à tecnologia ou, numa visão mais ampla, a qualquer “modernidade”, são capazes de:

  • ·        Arrancar um dente sem anestesia;
  • ·        Ir para o serviço a pé todo dia;
  • ·        Usar caneta tinteiro;
  • ·        Deixar de ouvir música;
  • ·        Atravessar o oceano nadando;
  • ·        Não cortar o cabelo nem fazer a barba;
  • ·        Deixar de usar relógio;
  • ·        Nunca tirar radiografia mesmo com o pé doendo…

E por aí vai.

Eu, de minha parte, acabei ficando com fome só de pensar na bocarra dos dinossauros. Vou, sim, esquentar minha comida no microondas. Não o utilizo todos os dias: somente quando estou com pressa. O meu amigo Marcondes, por sua vez, acabou de me telefonar (sim, ele usa essa “modernidade”, já antiga, por sinal, que nos poupa de andar quilômetros só para falar com alguém). É que o Marcondes está com dificuldade de produzir fogo para esquentar sua comida, usando apenas dois gravetos para produzir as chamas…

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