Folhas que o vento leva

Trinta e seis anos de jornalismo, sem contar as atividades exercidas antes de iniciada a carreira, como no tempo de trabalho “informal” (ainda como menor de idade) na agência Latin Routers, é trajetória suficiente para justificar como missão impossível a façanha de recuperar todos os textos publicados em forma de reportagem, artigo, colunismo político, matérias para várias editorias e por aí vai. São seguramente mais de sete mil textos, publicados na antiga Agência Nacional, Jornal de Brasília, jornal Estado de Minas, Diário do Grande ABC, Jornal do DIAP, revista Tendência (Editora Bloch), Jornal do Brasil, Rádio Jornal do Brasil, Revista de Seguridade Social (atualmente, revista Seguridade Social e Tributação), jornal Terceiro Tempo, além de participações em livros, em jornais alternativos e em vários sítios na internet.

Aqui não estão nem os melhores nem os piores escritos. “Nem os reli. Talvez nem mais concorde com algumas das opiniões manifestadas. Talvez sim, talvez não”. Estão aqui apenas aqueles pouquíssimos textos (do ponto de vista quantitativo, escassos) que permaneceram no HD do computador, ou dos computadores (uma vez que foram muitos), milhares desses textos perdidos em formatações ou então redigidos no próprio local de trabalho, tornando-se, desta forma, impossível resgatá-los. Até porque – é bom lembrar – o jornalista começou numa época em que as matérias eram escritas nas velhas máquinas de datilografia. Como guardar tanto papel? Como arquivar tantas publicações? Até que tentativas houve, mas a inexorável ação do tempo fez com que a umidade e o mofo saíssem vencedores. Foi também impossível resgatar a maior parte dos textos produzidos durante os nove anos em que trabalhou na sucursal do jornal Estado de Minas, em Brasília, como repórter especial de Política. “Líamos as matérias na própria sucursal. Ninguém comprava o exemplar, que estava à nossa disposição para leitura, de modo que não tenho praticamente nada arquivado daquele período”, explica Gerson Menezes.

Depois de muita procura, alguns arquivos antigos foram localizados, principalmente as matérias publicadas no Jornal de Brasília, onde atuou por 13 anos. Impossível escanear todos os textos: centenas e centenas. Segundo irão verificar os internautas, as páginas digitalizadas estão amarelecidas; outras estavam rasgadas. Algumas reportagens ocupam páginas inteiras, o que impossibilitou apresentá-las na íntegra. Por seu interesse, diga-se, “histórico”, o jornalista irá providenciar – em breve – a sua disponibilização, na íntegra. Há coisas preciosas, como o circo que “nasceu” na cidade satélite de Ceilândia, as reportagens feitas no prostíbulo de Planaltina, os relatos da época da ditadura militar. Muita coisa foi disponibilizada pelo seu valor – repita-se – histórico. Estamos falando de dois ambientes distintos nesta página na internet: além de tudo o que está contido em “Artigos”, o jornalista concentrou boa parte dos textos no link “Do baú”, direcionado mais ao início da carreira. Algumas reportagens e análises são da época em que atuou como crítico e editor de um suplemento diário sobre televisão. “Não reli nada. Pode ser que haja coisa não tão bem escrita. O ‘politicamente correto’ naquela época também não era tão rigoroso. Pode ser que eu tenha cometido algum deslize por inexperiência ou por falta de consciência política, que é algo que vai se adquirindo com a maturidade”, admite. “De qualquer modo, reacionário nunca fui”, brinca. Ele também pede que compreendam a multiplicidade de matérias sobre o extinto PFL (Partido da Frente Liberal). “É porque – explica – naquela época as redações dos jornais empregavam muito maior número de jornalistas, e podíamos nos dar ao luxo de dividir a cobertura por partido político. A mim coube um partido de direita. Não que eu quisesse ou tivesse escolhido”, ri. De qualquer modo, as matérias acabam sendo um registro histórico importante de uma época, de certa forma, “tenebrosa” da vida política no Brasil. “Comecei no jornalismo em plena época da ditadura militar. Não sou tão velho assim. Isso significa que a ditadura ocorreu há pouco tempo. Não podemos esquecer a lição nem aceitar que a juventude não conheça essa história”, analisa.

Devido ao exaustivo trabalho que teve para recuperar alguns textos (um “mínimo” de um ‘arsenal’ imenso, admite) o jornalista é defensor da informática, com perdão dos conservadores, e se escritos mais não há é porque Gerson Menezes se tornou tardiamente um amigo dessa tecnologia que arquiva em pequenino espaço milhões de folhas, livrando-as da poeira e do desgaste provocado pelas intempéries. Há também em sua biblioteca velhas páginas de antigas reportagens, mas amarelecidas pelo tempo, conforme já se explicou, e algumas delas praticamente ilegíveis. Resta esperar que, nos diversos jornais, revistas e demais periódicos ainda restem os arquivos intactos. Do contrário, como disse o poeta, “são folhas que o vento leva, ou que o vento já levou…”

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