Da ditadura à democracia

Depoimento prestado pelo jornalista na agenda 2006, editada pelo Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal, a convite do Sindicato.

O veterano – mais veterano do que eu – Leonardo Mota Neto colocou o braço sobre o meu ombro e andamos alguns passos na redação. “Você amanhã assume como editor de Economia”. Assim, lacônico, quase assustador. “Mas, Léo”, reagi, “eu não entendo nada de economia”. E ele não me deixou nem tomar fôlego: “Mas você entende de edição”.

E no dia seguinte lá estava eu, lendo tudo sobre economia que me caía nas mãos. Não me tornei exatamente um “especialista”, mas aprendi muita coisa. A primeira coisa que aprendi é que um jornalista nunca deve ter preconceito: eu percebi que não detestava economia, ao contrário do que sempre imaginei. Mais do que isso: aprendi até a gostar. E descobri outra coisa muito importante: em jornalismo, não existe bicho-papão. É fazer e aprender. Porque o melhor na vida é o sabor do saber.

Hoje, quando me vejo editando em frente ao computador, com a última versão do Page Maker que tudo faz e tudo consegue (até colocar um título de matéria onde ele não cabe), não posso deixar de lembrar dos “velhos tempos” em que editávamos sobre folhas enormes do então chamado “diagrama”, com calculadora, lápis e régua como instrumentos inseparáveis. Os fotógrafos é que ficavam loucos: a foto chegava às mãos do diagramador medindo 18×24, mas o editor só precisava de uma figura central, que não havia em nenhuma outra foto. E como não existia também o “milagre” do Photoshop, que corta sem cortar, o jeito era ir no estilete mesmo. E a foto ficava tipo tamanho 5×10, quando muito. Tinha fotógrafo que só não se atirava da janela porque a Redação era no andar térreo.

Posso dizer que, se não vi de tudo, vi de quase tudo em jornalismo, até briga de sopapo dentro da Redação. Quando ainda estagiário, no Jornal do Brasil, cercado das então modernas máquinas de datilografia Lexikon 80 (até hoje tenho uma em casa, bem perto do computador, no mais autêntico cenário de choque de gerações), ansiava pela chance de alçar grandes vôos. Ouvia o repórter mais antigo ao telefone, perguntando a alguém em casa se queria que ele levasse alguma coisa para comer, e ficava pensando no primeiro salário “decente” que receberia como jornalista, para perguntar a mesma coisa a alguém que estivesse em casa esperando por mim. Estávamos nos anos 70, eu ainda era estudante, mas namorava firme e precisava de grana.

A grande escola foi o Jornal de Brasília. Lá eu fui repórter, redator, chefe de reportagem, editor de economia, de política, de nacional, secretário de Redação e coordenador de Política, se é que me lembrei de tudo. Mas não foi essa variedade de cargos – ainda assim – a maior fonte de aprendizagem, mas o contato com um jornal onde é possível percorrer todos os setores, todas as fases de produção, desde quando a matéria “sai do cérebro” até quando o produto final é expelido pelas rotativas e já vem dobrado e pronto para a entrega.

Por isso mesmo, alguns anos depois, quando comecei a dar aulas de Jornalismo no Ceub (entrei para lecionar durante um ano e acabei ficando dez), sempre incentivava meus alunos a primeiro enfrentarem um jornal local, para entrar em contato com toda a “linha de produção”, por assim dizer. Sucursal é melhor para quem já está calejado. E aquele depoimento não era teórico, era resultado da experiência própria, já que – depois da fase inicial no Jornal do Brasil e de uma breve passagem, ainda quando adolescente, pelo escritório da agência Latin Reuters – só voltei a pisar em sucursais, com carteira assinada, mais de uma década depois. Nesse intervalo, deliciava-me com as reportagens sobre o circo que “nascia” na Ceilândia; com as conversas sempre plenas de experiência e sabedoria das prostitutas na zona de baixo meretrício em Planaltina e Brazlândia, que resultavam em matérias curiosíssimas; sensibilizava-me com as favelas de esgoto a céu aberto nas satélites mais pobres, com as histórias escabrosas da miséria absoluta em tanto lugar por onde estive. Perigo? Todo jornalista passa por isso. Uma das aventuras de detetive foi entrevistar um bicheiro, que não quis dizer o nome quando conversamos por telefone. Ele combinou vários códigos para que eu pudesse identificá-lo ao chegar ao Setor Comercial Sul. E lá fui eu, sentindo-me a própria figura do Sherlock Holmes.

Depois, veio a cobertura de Política, aquela de que eu mais gostava e ainda gosto, e na qual mais me fixei, por longos anos. Na verdade estava longe de ser uma estréia, era um retorno, porque eu já havia feito cobertura política logo no início da carreira, quando ainda estava no JB. Era plena época da ditadura militar e eu tomei o primeiro susto com a repressão. Gravador em mãos, cobri para a rádio JB uma entrevista com o então ministro da Justiça, Armando Falcão. Só que ele mandou os repórteres cortarem um trecho da entrevista e eu não percebi na hora. A sorte foi que resolvi ouvir a fita enquanto esperava o carro do jornal me apanhar no Ministério da Justiça. Fiquei imaginando o “rolo” que daria para o JB – e para mim –  se eu não tivesse cortado o trecho censurado pela ditadura.

No Congresso consolidei a convicção de que as generalizações não têm sentido. Existe, sim, gente honesta e digna no Parlamento. É como na sociedade: há o lado bom e o lado ruim. E quem exerce o jornalismo desde a época da ditadura, como eu, pode dizer com muita tranqüilidade que democracia é bem melhor, apesar de todos os problemas e de todas as imperfeições. Cabe a nós, cidadãos, aperfeiçoá-la.

 

 

 

 

 

No rodapé do depoimento:

Gerson Menezes, 53 anos, trabalhou a partir de 1974 em jornais locais e em sucursais, como Jornal de Brasília, Jornal do Brasil, Estado de Minas, Agência Nacional (atual Radiobrás) e revista Tendência (Editora Bloch), entre outros. Em 1998, fundou a TEXTOSMIL Produção Jornalística (www.textosmil.com.br), onde atua até hoje. Em 1999 estreou como escritor, lançando pela editora Thesaurus o romance “A Festa de Fim do Mundo”. Em 2005, lançou o segundo livro: “Sinfonia para Justine”, romance inspirado em fatos reais.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Spam Protection by WP-SpamFree