CPI para a camisinha

Jornal Terceiro Tempo – Edição não localizada nos arquivos

Publicada também no jornal alternativo De Olho no Congresso,

Ano I, número 03, edição de 21 de março de 1995, página 11

Num jornal apareceu outro dia uma notícia segundo a qual o uso de telefone celular provoca câncer no cérebro. A versão é de alguns cientistas: o homem – dizem os cientistas – nunca  antes encostou na cabeça um equipamento que emitisse tão forte radiação quanto os telefones celulares. Daí o risco de se contrair um tumor. Os fabricantes de celular, naturalmente, desmentiram a suspeita. E todo mundo continua interrompendo reuniões, festinhas, missas e velórios com a campainha irritante dos celulares. Ninguém deu bola para a advertência dos cientistas.

Existe também a polêmica da camisinha. O Estadão publicou esta semana mais um artigo onde se questiona a velha dúvida quanto à eficácia da camisinha na proteção contra a AIDS. Há novamente cientistas na jogada, alguns deles assegurando que o vírus da AIDS (que no Brasil, por sinal, deveria se chamar SIDA, como na França) é mais de 400 vezes menor que o espermatozóide e pode ultrapassar a porosidade da camisinha. Mas há igualmente quem conteste – diz a matéria – , assegurando que, quando corretamente usada, a camisinha “é o único meio mecânico de proteção contra a transmissão sexual do vírus da AIDS”, ou melhor, SIDA (Síndrome de Imuno-deficiência Adquirida, para explicar a sigla).

Aí surge mais uma dúvida atroz: afinal de contas, a verdade existe? Se é por falta de fita métrica –  cáspite!!! –  que se convoquem os computadores, mas é preciso logo medir esse diabo desse vírus e os orifícios da camisinha. Não parece fácil, diante de técnicas tão modernas? Apesar disso, a dúvida persiste, e o mais curioso é que muitas vezes a mesma instituição – como a Organização Mundial de Saúde – convive com versões diferentes sem definir qual é a correta. A conclusão só pode ser de que a verdade não existe!!!

Se a camisinha realmente não tem competência para evitar a SIDA, como é então que continuam as propagandas do Governo em favor do seu uso “preventivo”? E como fica aquela musiquinha de carnaval, que tanto incentivou os foliões? Será mais uma fraude da indústria farmacêutica, para faturar alto? E como pode o Governo deixá-la impune, se realmente se trata de propaganda enganosa? E o Código do Consumidor, pra que serve? E afinal, será verdade mesmo que o beijo não provoca SIDA? Nem o suor? Nem tomar banho e depois se enxugar com a mesma toalha que o aidético? (ou será sidético?) Será que, usando mais de uma camisinha – talvez umas três ou quatro – estaremos todos protegidos, a partir da hipótese de que o vírus não seja assim tão esperto para fazer tantas curvas entre os orifícios? … É lógico: se a verdade não existe, só podemos ficar cheios de dúvidas.

Tem mais uma que prova que a verdade não existe: saiu nos jornais que os senadores da República vão pedir ao Governo que, afinal, revele os números reais das contas da Previdência Social, já que o Governo andou mentindo a respeito. Ou seja, como a verdade não existe mesmo, os senadores pedem ao próprio Governo, que foi quem mentiu sobre os números, que forneça novos números.

Alguns políticos, é evidente, são mais sábios do que nós, pois já descobriram há muito tempo que a verdade não existe. Tanto que não a usam nos palanques. E continuam sem usá-la depois que se elegem. A gente, besta, achando que a verdade existe, não percebe que é mentira e vota neles.

A decisão só pode ser uma: pra beber, pra comer, pra continuar trabalhando, pra continuar pagando INPS, pra se aposentar e depois morrer de fome, pra votar, pra telefonar, pra continuar transando, todo eleitor tem que exigir a CPI do celular. E tem que exigir também a CPI da Camisinha. Melhor do que isto: é melhor logo unir todos os brasileiros pra começar a exigir a CPI da VERDADE neste país. Ou então, que nos locupletemos todos!!!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Spam Protection by WP-SpamFree