“Ao patíbulo!!!” (conto)

Mortaldo Carrascoza vestiu o seu melhor terno e chamou o filho mais velho, que acabara de completar 14 anos. “Vamos, que já está chegando a hora e deve ter muita gente”. 
No caminho, o filho de Mortaldo, de nome Crueldo, mas cujo apelido se resumia às cinco primeiras letras do nome, notou que o pai estava inquieto, agitado. Pensou em contar-lhe a última travessura: fora ele, Crueldo, ou Cruel, para os íntimos, o autor da morte do cachorro da vizinha. Não gostava do latido e botou formicida na comida do cachorro, que morreu contorcendo-se em dores terríveis. A vizinha chorou a morte do cachorro: era um animal dócil, seu companheiro nas horas solitárias, não fazia mal a ninguém, e sua única mania era a de latir quando via outros cachorros. Afinal, era também um cachorro. Crueldo, ou Cruel para os íntimos, riu da morte do pobre cão.
Ficou em dúvida se contaria ao pai, porque não sabia se ele iria ou não gostar. Achava que sim, porque o pai também detestava animais, mas lembrou-se da última vez em que o contrariou e acabou levando uma surra selvagem, de vara de marmelo, dessas de deixar marcas. Preferiu ficar calado. Além do mais, o pai estava saboreando antecipadamente o acontecimento que iria ter início dentro de meia hora.
O movimento à entrada do Parque da Cidade, em Brasília, era fora do comum. Os motoristas aceleravam ferozmente, embora houvesse polícia para todo o lado e muitos guardas de trânsito, tentando controlar o movimento. Mortaldo encontrou um amigo logo que chegou ao Parque. O amigo parecia perdido, não sabia o que estava acontecendo.
– O que é isto? –  perguntou atônito a Mortaldo, botando a cabeça para fora da janela do carro.
Mortaldo foi objetivo:
– É que vai ser hoje a execução pública do primeiro condenado à morte. 
Crueldo notou que o pai ficou mais agitado, ao dar a notícia. Percebeu isto porque ele segurou o volante com mais força, e parecia suar de satisfação.
Chegaram perto da cerca que foi montada em torno do patíbulo. A multidão se espremia. Alguns pagaram suborno para conseguir ficar mais à frente, bem perto da forca, para ver tudo em detalhes. Havia pipoqueiros, vendedores de cachorro quente e de churrasquinho do outro lado da pista. Foram impedidos de chegar mais perto do local da execução, pois parecia imoral às autoridades que as pessoas comessem cachorro quente enquanto alguém era enforcado. 
A agitação foi aumentando à medida em que a hora ia se aproximando. Algumas pessoas desmaiaram, devido ao calor intenso e à confusão toda. Outras gritavam: “Mata, mata, mata!”, e outras: “Assassino, assassino, assassino!”. O carrasco, que já havia subido ao patíbulo, sorriu sem graça, como se fosse para ele a ovação. A multidão notou seu constrangimento e bateu palmas, como que para saudá-lo. Ele ergueu os braços e apertou uma mão contra a  outra, também saudando o público num gesto que objetivava exibir seus músculos. Uma mulher chegou a aproximar-se para pedir-lhe um autógrafo, mas o policial a afastou. Muitas pessoas tentavam ultrapassar a barreira imposta ao público, na tentativa de chegar mais perto do patíbulo. A polícia tinha grande dificuldade em conter a multidão. 
Finalmente chegou a hora. Subiu ao patíbulo o condenado. Era um homem negro, alto, barba por fazer, cabeça raspada. Dizia-se inocente. Já pedira clemência tanto ao governador como ao presidente da República, mas lhe fora negada. O governador alimentava o sonho de ser presidente da República; o presidente da República queria dar andamento à sua carreira política, elegendo-se para o Senado. Ambos sabiam que o povo, em sua maioria, queria  a execução. Negá-la colocaria em risco o projeto político de ambos. 
O homem aproximou-se da forca, levado por dois policiais. Cobriram-lhe a cabeça com um capuz, que Crueldo achou parecido com um saco de coar café. Comentou com um rapaz franzino que estava ao seu lado e ambos riram. A piada foi sendo passada em frente, de modo que ouviu-se um rizinho no meio da multidão, pouco antes da execução. Havia também muito barulho por perto, porque um grupo de rapazes “encenava” um outro enforcamento numa árvore do outro lado da pista, dentro ainda do parque. Um moleque de rua foi apanhado para “representar” o papel do condenado e os outros rapazes o empurravam uns contra os outros, de pirraça. O moleque não gostou da brincadeira, mas não havia como escapar. Os outros eram maioria.
Quando recebeu o capuz na cabeça, o homem  negro com barba por fazer e cabeça raspada ficou mais agitado e começou a transpirar. Sua respiração acelerou-se, de modo que o capuz de pano estufava e encolhia diante de sua boca. Era uma respiração nervosa, agitada, contínua, acelerada. Uma velha que estava ao lado de Crueldo, com um terço na mão, repetia incessantemente: “Minha nossa, minha nossa!!!”. Crueldo bateu no ombro dela: “Calma, vovó”. A mulher desconhecida continou espantada: “Minha nossa, minha nossa!!!”.
Finalmente o carrasco e a corda fizeram seu serviço. O corpo despencou pendurado pela corda, as pernas do homem se agitaram, trêmulas, e finalmente se enrijeceram, enquanto o corpo todo balançava de um lado para o outro. A multidão aplaudia. Um médico se aproximou depois do corpo, para tomar o pulso do morto e ver se estava mesmo tudo acabado. A multidão queria se aproximar. Tomados por uma curiosidade mórbida, todos queriam ver o corpo de perto, olhar a cara do homem, verificar se ele já estava frio. 
Aos poucos a multidão foi se dissipando, mas havia arruaça por todo o parque. Os motoristas pisavam mais no acelerador, mulheres e homens corriam para o ponto de ônibus, um grupo religioso entoava um cântico, outro grupo protestava contra o enforcamento. Houve brigas, muita gente bebeu cachaça, um mendigo estourou uma garrafa na cabeça do outro.  Estavam todos agitadíssimos. 
A multidão que saía do parque esbarrava numa mulher maltrapilha, que pedia esmolas e parecia alheia a tudo. Ela perguntava a todo mundo: “O que foi, meu filho?  O que foi?”. Alguém se compadeceu de sua ignorância e lhe esclareceu a dúvida: “Foi um enforcamento!”. A velha olhou para o patíbulo: o corpo já estava sendo envolto em pano e retirado.
 “Que Deus o perdoe”, disse a mendiga.
Logo em seguida surgiu um rapaz, acabrunhado, que a tudo assistira, e emendou a frase:
“Que Deus nos perdoe a todos…”

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