Adeus à política bolorenta

Arquivo impresso não localizado

Jornal Terceiro Tempo – RJ – edição nacional

Publicação: final dos anos 1990/ano 2000

Estamos no quase pleno gozo de um breve descanso de apenas duas semanas em nossos afazeres profissionais, porque afinal ninguém é de ferro, e é num intervalo dessa tentativa de relaxamento que retomamos o contato com o computador para escrever aos leitores do Terceiro Tempo. Dizemos “quase pleno gozo” porque num País como o Brasil, onde os dramas humanos se avolumam a cada instante, fica difícil desligar-se dos problemas de modo a curtir o descanso em sua plenitude. Procuramos sempre relaxar ao menos “um pouco”, mas há sempre as velhas questões a nos preocupar quando ligamos a televisão ou damos uma olhadinha no jornal para não perder o vício de manter-se informado.

Nessa tentativa de descanso, percorrendo apenas os cerca de 200 quilômetros que separam Brasília da cidade goiana de Anápolis, para alguns dias em contato com a natureza num hotel-fazenda, nos deparamos com a rude realidade do descaso pela coisa pública de que somos vítimas como contribuinte, ao constatar – ainda que num breve trecho de estrada – a persistência da velha política de mau uso da verba pública federal. As estradas continuam esburacadas, mal cuidadas e mal sinalizadas, e os trechos onde havia “indícios” de duplicação continuam apenas ostentando esses “indícios”, sem que a duplicação se concretize.

Faz alguns anos percorremos o mesmo trecho e nada mudou de lá para cá, isto quando não mudou para pior. E não houve diminuição de impostos federais, muito pelo contrário: num contrastre com o que acontece com o salário dos brasileiros, os impostos avolumaram-se, foram corrigidos monetariamente – com ampla margem de vantagem para o Estado – e nesse mesmo intervalo de tempo a malha viária não se ampliou a ponto de encontrarmos em supostas “novas estradas” a  justificativa para o descaso e a falta de investimento nas velhas estradas. Prevalece apenas o bolor da velha prática política, que consiste em exigir mais e mais da população, sem oferecer-lhe em troca a contrapartida a que tem direito.

Os proprietários de automóveis continuam regiamente pagando suas contribuições e taxas a cada ano, e agora deparam-se com a tentativa de instituição de mais um imposto a pretexto de “conservação” das estradas brasileiras, muito embora – conforme já frisamos – nenhum dos impostos existentes tenha diminuído ou passado por qualquer tipo de corrosão em seus valores monetários, muito pelo contrário.

Ao tempo em que registro essas observações, leio num jornal brasiliense a constatação de que o desempenho da Câmara Legislativa de Brasília é aprovado por apenas quatro entre 10 eleitores do Distrito Federal. Na mesma pesquisa a constatação de que o desempenho dos deputados distritais “desagrada quem tem curso superior e agrada eleitores de baixa instrução”. Parece estar aí o famoso “bug” do milênio: os políticos brasileiros, em pleno ano 2000, às vésperas do novo século, ainda não perceberam que, ao contrário do que eles imaginam, o eleitor começa a acordar e a cobrar novas posturas. Afinal de contas, o amadurecimento político das massas, ainda que extremamente vagaroso, é inevitável. E adianta um pouco, mas não muito, manter o povo ignorante. Cada um, a seu modo, um dia despertará, ainda que mais vagarosamente do que gostaríamos.

 

NOTINHAS

 

Dispenso-me de escrever, e aos eleitores de ler, as pequenas notinhas que preenchem a coluna. É que, neste breve descanso a que me propus para recuperar as forças, tenho acompanhado um pouco mais de longe as agruras do dia a dia da política brasileira, de modo que poupo-me de comentá-las neste breve intervalo de descanso. Mas não fiquem excessivamente acabrunhados nem sintam-se recompensados: comprometo-me a retomar a antiga rotina na próxima coluna.

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