A “verdade” e a realidade

Sempre me abstive de participar do debate político que se trava no Facebook. Considero o cenário político podre. Respeito a opinião dos que declaram voto a A, B ou C, mas acho deplorável que as pessoas se digam donas da “verdade” quando pretendem atacar os que discordam do seu voto. É até ironia falar em “verdade” em meio a um cenário político em que todos sabemos que a mentira é dita descaradamente, por qualquer dos que participam da atual disputa.

Resolvi assistir ao debate na Globo porque estava exausto após horas seguidas de trabalho e queria rir um pouco. Consegui. Poucas vezes vi tanta mediocridade, hipocrisia, ridicularia. Mas foi um riso triste, porque gostaria que o cenário fosse bem diverso. Não assisti a uma boa comédia. Assisti a uma patética comédia pastelão da pior fase do cinema.

Todos que convivem com política há algum tempo lembram-se de debates que carregavam um mínimo de seriedade, o que hoje em dia é cada vez mais escasso. Havia, já àquela época, quem reconhecesse que o problema do Brasil não é econômico, e sim político. Qualquer historiador sabe que não dá para dissociar a política da economia, e vice-versa. Fenômenos econômicos já produziram monstros políticos como Hitler e Mussolini (entre inúmeros outros). Hoje, indubitavelmente, não estamos bem economicamente exatamente por isso: nosso problema não é econômico; tem origem na política.

Tenho declarado, nas poucas vezes em que compareci a esse debate no Face, que nenhum dos candidatos merece o meu voto. E recebo recados de “especialistas” de que no atual jogo (sujo) político os votos em branco ou nulos têm essas e essas consequências… É como se me dissessem: entre na roda de pôquer, embora só haja canalhas na mesa, porque, se você não entrar, não vai ter condições de ganhar.

Não me importa o que diz a legislação. Se eu não concordo com ela, não vou me dobrar aos seus ditames. Quando a situação chega ao caos, há sempre necessidade de uma certa dose de “incongruência” (se assim se pode chamar, na falta de melhor designação) para fazer algo destinado a mudar essa realidade. As grandes revoluções humanitárias não resultaram de fatos “congruentes”, mas de atitudes que desafiavam o “lógico”, o “aceitável”, as “regras do jogo”.

Um grande líder já ganhou uma revolução deitando-se no chão cada vez que a tropa de choque se aproximava. Em vez de partir para um “confronto” com a polícia (o que obviamente resultaria em derrota), ele se deitava no chão e pedia a todos que o acompanhavam que fizesse o mesmo.

Para mim, nada mais incongruente do que aquela atitude. Nada mais aparentemente “absurdo”. Mas ele saiu vencedor. E mudou a realidade. Porque o que existe não é “verdade”. Verdade, cada um tem a sua. O que existe é realidade.

Pouco me importa o que pode parecer congruente e o que dizem os que se julgam donos da verdade. Pouco me importa o “lógico”, o “aceitável”, as “regras do jogo”. Se o problema do Brasil é a podridão do atual sistema político, não se pode participar dessa mesa de pôquer. Porque, do contrário, os canalhas sempre estarão presentes à mesa.

(Publicado no Facebook em 04/10/2014, à véspera das eleições em que os três principais candidatos eram Dilma, Aécio e Marina)

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