A Reforma Ortográfica é Elitista, Reacionária e Autoritária

Título original: Pela liberdade de acentuar!!!

Publicado no site Nosrevista, em 7 de agosto de 2009

Embora com certo atraso, porque muita gente já falou a respeit0, atrevo-me a meter o bedelho na tal da reforma ortográfica. Faço-o com redobrada coragem, tal o número de críticas que tenho lido a respeito. Muito ao contrário de poder ser tachado de um sujeito “do contra”, constato que é bem numerosa a rejeição ao estulto procedimento dos que, aparentemente pretendendo posar de jovens, imaginam que conseguir tal proeza se resume a conjugar o verbo mudar, ainda que para pior. Leio uma enquete num blog em que praticamente todo mundo dá de porrete na reforma. Professores, poetas e escritores de envergadura também já se queixaram. Uma boa síntese foi feita pelo professor Pasquale: os custos superam em muito os benefícios, se é que estes existem.

Aliás, embora nem de longe eu me considere um conservador, não é de hoje que percebo como desastrosas as tentativas de impor essas reformas de cima para baixo. Pecam já pela falta de lógica. Raciocinem: qual é a finalidade de um acento? É mostrar como devem ser pronunciadas as palavras, correto? Se for assim, por que eliminar logo os diferenciais, se a partir disso é preciso “perceber o sentido da frase” para entender o que está sendo dito?  Se eu tiro um acento diferencial, preciso primeiro “decifrar” a frase para então chegar à pronúncia correta, “pelo seu sentido”. Vamos então começar por eliminar todos os acentos não-diferenciais, cujas palavras não disputam os sons com ninguém. Assim, “estúpido” será sempre “estúpido”, ainda que não pertença à Academia Brasileira de Letras, porque não existe “estupido”. Então, eu não preciso nem “decifrar” previamente o sentido da frase para saber que é “estúpido”. Mas caso se retire o acento, corre-se o risco de ouvir-se a palavra pronunciada erradamente. E aquelas que levam o acento diferencial, estão livres disso? Não. E ainda há o trabalho adicional de verificar previamente o “sentido da frase” para não cometer erros. Mas, e se o sentido for dúbio? Estará liberada a pronúncia incorreta? E se o leitor não conhece o significado do termo, passa a ter licença para errar na pronúncia? Além disso, uma língua não é uma equação, que precise ser “decifrada”.

É óbvio que tais reformas têm muito a ver com o “macaquismo” que os hermanos argentinos identificam em nós, brasileiros, que nos habituamos a “americanizar” tudo. Eis a motivação: como na língua inglesa não se acentua, vamos procurar o mesmo caminho para o Português. O pretexto seria “padronizar” a linguagem. Voltemos ao inglês. Nem ele é padronizado. Em artigo publicado recentemente no jornal O Globo, a escritora e jornalista Ângela Dutra de Menezes (que, apesar do sobrenome, não tem nenhum parentesco com este modesto escriba) exemplifica de forma brilhante: “Em inglês – mostra ela – há muitas discordâncias. Para ficarmos no básico: nos Estados Unidos, agenda se chama appointment book. Na Inglaterra, diary. Num lado do metrô é subway. No outro, vira underground”. E vai mais fundo: “O americano grafa favorite, gray e theater. Os ingleses escrevem favourite, grey e theatre”. E ninguém nunca ousou dizer que essas diferenças na língua mais poderosa do mundo causam prejuízo a quem quer que seja. 

Já houve quem me dissesse que os que estão contra a reforma ortográfica “não a entenderam” ou então são “reacionários”. É precisamente o oposto: quem a absorveu pacificamente dá mostras de subjugar-se facilmente aos ditames elitistas e ao poder autocrático próprio das ditaduras sombrias. Mais do que reacionária, a reforma é autoritária, pois pretende impor, de cima para baixo, regras gramaticais por decreto.

Antes de me alongar mais um pouco, recorro novamente à xará Menezes para ilustrar outro exemplo brilhante, quando lembra a reforma ortográfica de 1971, que começou a sumir com os diferenciais. “Na época – recorda ela – nasciam os atuais repórteres de rádio e de televisão que hoje, noticiando a gripe suína, confundem cepa (com E aberto, significando plantas da família das liliáceas) com cêpa (linhagem, origem). Após 1971, os dois vocábulos passaram a ser grafados igualmente: cepa. Resultado: quem escuta alguns jornalistas divulgando a pandemia, confundindo cépa com cêpa, acredita que o vírus é uma babosa assassina capaz de contaminar as pessoas com a gosma”.

Eu quero ter o direito de dizer que “a forma do bolo é redonda” de um jeito que saibam que eu digo “fôrma” e não “fórma”. É verdade que, afinal, os “reformadores” sucumbiram às evidências e acabaram “licenciando” algumas exceções, como esta. Mas isso não é suficiente, pelo seguinte: não é quem se expressa que precisa estar subjugado ao idioma. É o idioma que tem que se subjugar às necessidades de expressão. Sendo assim, é válido proclamar: “Pelo direito de acentuar livremente, já!”

Vejam somente mais uma coisinha: se um minúsculo tracinho agride tanto, por que então não eliminar a crase? Certa vez, caminhando num trecho pequeno de um dos inúmeros shoppings (olha aí o inglês) de Brasília, verifiquei cinco crases empregadas erradamente em placas e avisos, ou por excesso, ou por omissão. E as pessoas lêem as frases do mesmo jeito, com a mesma facilidade, ainda que as crases estejam erradas. Então, em resumo: a crase não faz a menor falta. Serve apenas para fazer passar raiva quem sabe empregá-la. E por que não se fala em aboli-la? Porque para empregar a crase é preciso conhecer regras gramaticais. Conclusão inquestionável: querem impor o idioma como código ao alcance apenas da elite conhecedora de regras gramaticais. A reforma – repito – é elitista, reacionária, autoritária. Abaixo o autoritarismo dos pseudo-intelectuais calhordas!!! Pela plena liberdade de acentuar quando quero que me leiam da forma como quis me expressar!!! Podem contar comigo para essa luta.

 

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